terça-feira, 16 de setembro de 2008

Uma fatia de torta


Hoje, 16 de setembro é meu aniversário.


Completo 34 primaveras.


Adoro fazer e comemorar aniversário.


Dizem até que pareço criança: os dias que antecedem ao meu aniversário vivo uma expectativa quase infantil, uma ansiedade adolescente. Adoro receber abraços, parabéns, carinhos.


Nesse tempo todo vivi histórias lindas, tristes, comuns. Nesses 34 aniversários ganhei presentes caros, baratos, importados, lembrancinhas, beijos, abraços, namorados, amigos, um filho lindo, comemorações inesquecíveis. Também ganhei silêncio, olhares de obrigação e parabéns atravessado.


Entre as boas lembraças está outra coisa que eu adorava ganhar: os doces que a minha madrinha fazia para comemorarmos a data. Quindins, beijnhos, docinhos de nozes e o meu preferido, o Tiramissu.


Sim, em letra maiúscula. O doce merece ser tratado com respeito, afinal é uma sobremesa clássica italiana, gelada, à base de café e de mascarpone, e servida geralmente no Ano Novo. O que me faz crer que essa é a iguaria ideal para um aniversário, afinal, comemoramos um "Ano Novo pessoal", um início de ciclo.


Mas tive também, algumas vezes, aniversários que não havia um bolo sequer para comemorar. Época que não faltava dinheiro, porque, mesmo quando era criança e as dificuldades finaceiras batiam à porta, nunca faltava um bolo com glacê decorado com "pitangas" coloridas com anilina e balas de coco embrulhadas em papel de seda. E, se não faltava dinheiro, sobrava silêncio...


O que sinto falta hoje é da proximidade. Da cumplicidade dos pais em torno da comemoração de mais um aniversário do filho, da inveja branca do irmão menor, espiando tudo e roubando brigadeiros.


Não estou me referindo à comemoração social, a festinha. Mas do prazer em ver nos olhos dos meus pais a referência de vitória, de dever cumprido pelo filho criado que, apesar da idade, nunca deixará de ser filho.


Por isso amo o Tiramissu da Cecília (minha madrinha). Porque para ela, não importa se tenho 34 ou 7 anos. O que vale é ela ver o prazer em meus olhos ao receber um carinho, um afago tão doce (literalmente) e sentir o prazer de ter feito um bem.


Enfim...


Parabéns para mim!!!


Abaixo está um texto do Fabrício Carpinejar (pra variar... rs) falando sobre aniversário.


Um beijo e obrigada, de coração, a todos que mandaram recados, falaram comigo ou simplesmente pensaram em mim neste dia,


Andréa


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UMA FATIA DE TORTA




Não sofri fome em minha vida.


FOME. Como a descrita por Nelson Rodrigues, de comer água.


Nem sei o que é carência.


Apesar da verdade que me falta, entendo o que é falso.


Meu filho voltou desapontado do aniversário de um amigo. Disse que havia sido o pior de sua vida, bem exagerado como seu pai. Eu fui buscá-lo e meio que visualizei o drama no salão. Era uma festa-fantasia. Não havia um só menino ou menina que acatou a sugestão de dublar um super-herói. Mas, em compensação, a maioria dos pais circulava com capuz, capa, lantejoulas, suspensórios, pinturas e brilhos.


A festa serviu mais para os adultos do que para os pequenos. Talvez meu filho quisesse se sentir inteiro, fiel a si. Ele não precisava se fantasiar, ainda está na infância. Os adultos é que usaram o pretexto infantil para liberar seu armário e destrancar os brinquedos da nostalgia.


Em São Sepé, eu me prontifiquei a atender numa padaria. Implorei ao dono, para susto das funcionárias. Elas me forneceram touca e avental. Aprendi a fazer expresso, preparei torradas e limpava a mesa com um paninho de álcool.


Vivia o suspense do outro lado da cortina, a expectativa de quem iria chegar.


Uma senhora entrou com um menino e sentaram no balcão azul. Ela apontou para a torta de chocolate.


- Duas fatias?, perguntei.


- Uma só, ela respondeu.


Levei um generoso prato para o guri, que deixou as mãos para trás e se aproximou do pedaço com o rosto. Assim como quem não acredita. Cintilavam suas pupilas negras. Tinham uma lupa escondida nelas, que granulavam o reflexo. Comeu esperançoso, recolhendo o fundo do leite condensado do prato.


Comeu não, bebeu a torta. Quanto mais avançava, hesitava com receio de terminar sozinho.


- Vó, vó, prova?


- Não, é seu aniversário... É toda sua.


E me dei conta que ele estava comemorando oito anos e recebia de presente a torta. Seria seu único presente. Nem por isso, menos valioso.


Quantas vezes, na cidade pequena, os dois passaram pela frente da padaria e reavivaram a promessa? Chegou finalmente o dia. O banquete. A roupa limpa de missa, o guardanapo, o banco alto, o pedido. A avó respeitava sua alegria. Debruçada de lado para os movimentos do pequeno. Podia estar com fome, mas censurava o avanço.


Não solicitaram nenhum refrigerante ou suco. O brigadeiro descia a seco pela garganta, completando os dentes de leite. Não ousaria pagar a fatia ou oferecer o doce. Seria arrancar da mulher o direito da dádiva. Banalizar sua oferta. Restava permanecer como espectador, sem me incluir entre eles, apesar do desejo de nascer naquele instante.


Não perguntei se ele gostaria de repetir.


Tampouco demonstrou contrariedade com o fim, apenas girou o corpo para a rua à espera do próximo ano. Segurou o pulso da avó como quem ajusta a manga da camisa. E me partiram por dentro.


Os melhores aniversários são os mais singelos, desesperadamente necessários.


O que ninguém nota que está acontecendo, além de nós. E que não será esquecido pelo sacrifício que um fez pelo outro.






Um comentário:

lili disse...

Também adoro fazer aniversário! E por sinal, faço um dia antes que você, dia 15 de setembro. Conto para todo mundo que o meu aniversário está chegando... Lembro até que no meu antigo emprego, a agenda dos outros colaboradores no outlook, era compartilhada, ou seja, qualquer pessoa poderia agendar um compromisso. Advinha o que fiz? Escrevi na agenda de todos que dia 15 de setembro era o meu aniversário... É bom saber que existem pessoas que também amam fazer aniversário. Afinal espero 364 dias para ter realmente 1 dia só meu!