segunda-feira, 17 de maio de 2010

Do tempo. Ou, sobre o envelhecer.


um mês tive que dar boas-vindas aos primeiros fios de cabelos brancos. Nunca havia me preocupado com isso antes, até porque, durante um bom tempo, coloria meus cabelos. Daí que quando resolvi deixar as madeixas da cor natural, me deparo com a surpresa.

Ok, concordo que cabelos brancos não são sinal de velhice. Meu irmão tem cabelos brancos desde os vinte e poucos anos – herança genética do meu avô, um senhor de 89 anos completamente grisalho desde a tenra idade também. Porém, como eu disse antes, me deparei com essa surpresa “desagradável” numa fase em que já vinha mastigando a idéia do envelhecer.

Envelhecer não é opção: é condição de vida. Ou você aceita e vai se adequando e aproveitando o que a maturidade lhe traz, ou vai viver como uma Susana Vieira, que jura por Deus que ainda tem 29 anos. Aliás, aceitar o RG é necessário para conseguir entender as mensagens contidas nas rugas.

Eu, por exemplo, não tive a tal crise dos 30 porque não me sentia com 30. Sempre tive um espírito muito jovem, tanto que certa vez um ex-chefe até me classificou como Peter Pan, o garoto que não queria crescer.

A crise só bateu quando percebi que meu filho estava com 10 anos.

Olhei pra trás e vi que uma década havia escorrido entre meus dedos.

Meu Deus! É muito tempo!, pensei.

Talvez porque tudo tenha acontecido de uma forma tão amedrontadoramente rápida eu não tenha sentido o tempo passar: a gravidez, a interrupção da adolescência tardia, o ganho da imensa responsabilidade de ser mãe solteira, a questão financeira, a questão emocional... Não tive tempo de ter crises...

No dia que percebi meus cabelos brancos também notei as linhas de expressão no meu rosto, as olheiras. Envelheci mesmo. E envelheci muito mais no último ano do que durante toda a última década.

A minha imagem no espelho é hoje o reflexo das minhas escolhas. Não sou mais menina. Aos quase 36 anos sou mulher.

Guardei para mim esse segredo, certa de que poucos iriam notar as sutis diferenças. Mas eis que o Zé me surpreende e confessa, como num sussurro, que também envelheceu. Olhei para seu rosto e de imediato não consegui ver nada de diferente, afinal, para mim ele ainda é um molecão!

Daí que diante da minha negativa, ele quis me provar mostrando fotos nossas tiradas ao longo de quase seis anos de convivência. E qual não foi a surpresa ao nos depararmos com tantas mudanças!

O tempo passou para os dois e deixou marcas. Talvez se a vida não tivesse judiado tanto dele, e não tivesse inventado tantos obstáculos para mim, talvez tivéssemos ainda o vigor dos vinte e poucos anos.

Talvez...

Mas se talvez o tempo não tivesse passado, jamais teríamos a oportunidade de amadurecer, nem de admirar a atual beleza de nosso olhar, que carrega tantas histórias pra contar.

Bem, pelo menos estamos no caminho de realizar uma vontade em comum: ficarmos velhinhos, sentados lá na varanda e mãos dadas. Pra sempre!


PS: tenho mesmo muita história para contar, porém, eu ainda não aceitei totalmente a idéia de estar já na meia-idade...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

E a adolescência, enfim, chegou.

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Como o próximo domingo é Dia das Mães, resolvi tocar no assunto porque, na verdade, meu texto vai para o caminho do desabafo.

Todo mundo sabe que eu sou mãe-solteira do Lucca, que hoje está com 10 anos. Assim como todo mundo sabe da ausência velada de seu pai, que nunca nos ajudou, e só aparecia em datas cívicas e comemorativas, para ostentar o filho limpinho, educadinho e bonitinho.

Anos se passaram e eu fui vencendo os milhares de desafios que vida foi impondo e, do meu jeito, fui fazendo do Lucca um cara legal.

Acontece que um "mal necessário" anda rondando a minha casa: a adolescência. Pode parecer muito cedo para isso, mas afirmo que não é. Hoje em dias as fases são antecipadas e quando menos esperamos a coisa aparece.

Só que eu não estou conseguindo lidar direito com isso porque descobri em meu filho uma força interior que há muitos anos não via. Ele tem características minhas tão fortes, tão marcantes que eu realmente não sei o que fazer. Me vejo em muitas de suas respostas ou de suas indagações.

Não, ele não é um monstrinho. Mas se torna um alien quando eu não reconheço mais o meu "filhinho" em nada, e as atitudes que eram tão previsíveis, tornam-se uma supresa atrás da outra.

E os sinais são clássicos: interesse pelas meninas, alguma rebeldia, vontade de ficar sozinho o tempo todo, dizer que ninguém o entende, não suportar ser beijado ou abraçado em público por mim ou pelos meus pais, e dentro de casa ainda agir como uma criança.

Concordo que essa fase é um verdadeiro limbo: não são nem crianças, nem adolescentes de fato. Nem eles mesmos se entendem, se reconhecem.

Semana retrasada ele foi numa balada, a primeira em sua vida. A festa começava às 19h30 e terminava as 23h30. Só consegui sair de lá (depois de quase meia hora esperando uma vaga para estacionar e ligando insistentemente para meu filho, que não atendia) quando já passava da meia noite, e as meninas dizendo a todo o momento que o Lucca era "muito fofo". No dia seguinte ele dormiu até às 11h, e quando acordou disse que não era para eu fazer muito barulho porque ele estava de ressaca. Ressaca de suco de uva e guaraná!! A noite ele foi dormir na casa de um amigo, e ficou mais dois dias curtindo a vida a doidado.

A semana passou e ele deu as suas primeiras pisadas na bola, típicas de adolescentes também: simplesmente esqueceu de uma prova de recuperação de história e teve que fazer na última hora, perdendo o horário da natação inclusive, e depois a prova substitutiva de gramática, que ele jurava não saber o conteúdo porque a professora não havia passado.

Daí que eu descobri que ele mesmo havia escrito em sua agenda todo o conteúdo para todas as provas. E ele insistindo em não saber, ou não me falar a verdade.

Juro que perdi a paciência naquele momento. Falei um monte de coisas, dei bronca, e cheguei até bater nele com a agenda. Conclusão: ele está de castigo até o dia 10/5 sem computador, TV a cabo, video games ou qualquer outro tipo de game, DVD´s, e caso as notas venham abaixo de 7,5, o álbum de figurinhas da copa será confiscado até o fim do campeonato.

Ou seja, tive que tomar medidas extremas para que os limites sejam esclarecidos, e ele perceba que por mais que esteja crescendo, ainda é uma criança. mas confesso que fui dormir me sentindo péssima, culpada por não poder estar mais perto dele, por não acompanhar as lições, por não ser mais presente em sua vida.

Neste sábado, o amigo que ele passou o outro fim de semana fez aniversário, e diante da vontade do garoto, os pais (que são amigos muitos queridos), promoveram uma baladinha em casa. A festa começou cedo e terminou tarde, acreditem.

Juro que me assustei diante da postura do Lucca na festa: ele já não era mais aquela criancinha que a todo instante corria para mim. Era alguém com personalidade própria, vontades próprias, atitudes próprias. Pra falar a verdade, acabei dando risanda diante de seus jeitos e trejeitos com as meninas, a forma com que jogava o cabelo pro lado e falava com uma entonação mais grossa. Viemos embora com ele trocando telefones com as novas amigas e prometendo ligar...

E como ontem eu continuava firme no meu propósito do castigo, ele veio conversar comigo. Admitiu a pisada na bola, pediu desculpas e aceitou que a punição fosse mantida. No fim chorou e me abraçou, dizendo que me ama muito e, finalmente, se abriu dizendo que a vida dele não estava muito fácil porque em menos de um ano tinham acontecido muitas mudanças e muitas perdas, afinal, pessoas que ele ama foram embora.

Nessa hora caiu a minha ficha: ele perdeu algumas de suas referências com a mudança dos maus pais, do meu irmão, a morte da Leda e da Vó Nora, além da condição financeira que está aquém daquela que tínhamos. A maturidade e a adolescência chegaram de vez em seu caminho. ambas empurradas.

Depois de ouví-lo, o abracei bem forte, beijei sua testa e assumi que sou completamente doida por ele.

Talvez por já ter passado por tudo isso eu acredite que estou no caminho certo. Porque, afinal, ser mãe é andar tateando no escuro num enorme salão de baile.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Histórias para contar.


Tenho muitas histórias para contar.
Aliás, acho que todo mundo tem. Ou, pelo menos, deveria ter. A nossa própria vida é uma história, com todos os desdobramentos imprevisíveis que uma boa história precisa ter.
Tem gente que vive em crônicas, tem gente que vive numa saga interminável, tem gente que vive poesia. Tem gente que vive, por incrível que pareça, em hai-kai.
Acho que sou crônica o tempo todo: cada dia uma, com uma tema diferente, um olhar específico para cada assunto.
Talvez seja por conta da minha profissão. Tem até uma brincadeira que diz que assessor de imprensa conhece um oceano de coisas, com a profundidade de um dedo. Já fui assessora de Danoninho, de defensivo agrícola, de chocolates, biscoitos, sucos, sobremesas, moda, médicos, laboratório farmacêutico, educação e mais um monte de outras coisas. E para escrever e divulgar tudo isso, precisei ler, pesquisar.
Além disso, tem um traço da minha personalidade que me faz ter atenção em tudo isso e, assim, ligar um assunto com outro é apenas questão de memória
Nessa minha profissão, exercida desde 1996, coleciono muitos micos - uns deprimentes, outros hilários, como a vez em que a marca de sobremesa láctea cremosa (melhor não dizer a marca aqui...) que eu atendia resolveu fazer uma ação para combater um produto lançado pelo concorrente. A brilhante idéia era apenas misturar o doce no sabor chocolate com leite e levar ao microondas (para ter um chocolate quente super-cremoso), e o meu trabalho consistia em oferecer a novidade aos jornalistas, dando de brinde uma caneca.
Até aí, OK.
No meio da entrega dos brindes recebo a notícia de que a caneca não podia ser levada ao microondas, e que também não comportava todo o conteúdo do preparo.
Conclusão: tive que ligar para todos os jornalistas da minha lista e avisar que a caneca era só um "mimo" (ou seria um mico??).
Tem também a história do médico cirurgião vascular que realizava cirurgias de aumento peniano, e eu tinha que divulgar a proeza do doutor, é claro. Duro mesmo (com o perdão do trocadilho infame) era a risadinha abafada e tensa dos jornalistas do outro lado da linha. Graças a Deus não consegui emplacar nada...
Tem também a comédia da vida privada. Algo bem particular, meu.
Costumo rir das minhas trapalhadas (como o dia em que bati a cabeça no suporte do microondas ao tentar salvar um copo que "pulou" do escorredor de louças. Ganhei um galo na testa e o copo espatifou no chão).
Costumo dizer "bom dia, Dia" todas as vezes que vejo o sol nascendo, mesmo achando isso brega. Também costumo olhar fotos para reviver as histórias. Tem algumas que ainda estão tão vivas na minha memória que cheiros e sensações parecem estar impregnados no papel.
Tenho muita história pra contar.
Já vivi muita coisa e sei que ainda vou viver muito mais.
Tenho muita história pra contar porque meus dias não são vazios. Aliás, minha vida é repleta de acontecimentos enriquecedores - bons e ruins. Tenho fases que viram histórias. Assim como histórias, que ficaram presas em tempos que não voltam mais.
Estou chegando aos 36 anos, tenho um filho de 10 anos e lá se vão quase 14 de profissão. Ainda sou solteira. Ainda sonho em ter um companheiro. Ainda penso em ter uma família maior.
Também penso em ter minha lojinha de artesanatos, ou minha floricultura, ou uma loja de paisagismo. Ainda penso em ir embora de São Paulo, morar perto de uma praia, ter uma vida mais tranquila.
Conto todos os dias a história dos meus sonhos, dos meus planos, porque dessa forma me mantenho viva.
E assim vou contando pra mim mesma a história da minha vida. Porém, há alguns dias venho escutando algo que já não satifaz mais. Talvez porque já está na hora de começar outro capítulo. Afinal, a mocinha anda precisando de um final feliz.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Programa de mulherzinha (pra depois do susto).


Há uns dias tive um grande susto com relação a minha saúde. Graças a Deus não foi nada grave, porém, só o sobressalto de ficar dois dias num hospital, sem que algum médico conseguisse chegar a um diagnóstico decente, foi realmente aterrador.

No dia 12 de março, em plena sexta-feira, comecei a ter uma dor de cabeça que não passava com nenhum dos remédios que estou acostumada a tomar. No sábado acordei sem dor, porém, bem indisposta. Pra ajudar a empregada deu o cano e eu tive que "abraçar" a causa e partir pra faxina geral. No domingo acordei péssima, pesada, com uma dor de cabeça insuportável. Tive dois princípios de desmaio e quando percebi que não tinha forças nem pra escovar os dentes, fiquei quietinha, deitada na minha cama. Só que o mal estar não passou e daí apelei pra minha mãe. Fomos ao hospital e daí vocês imaginam como é atendimento de emergência em pleno domingo...
A médica neurologista, em menos de dez minutos de consulta virou-se para minha mãe de atestou: "sua filha está com síndrome do pânico".

Opa! Peraí!!!! Eu??? Com síndrome do pânico??? Como assim???

Eu estava com a pressão alta (17x7), uma dor insuportável, assustada, e com muito enjôo. Isso era enxaqueca, na minha opinão. Fiquei internada na enfermaria até às 23h, tomando remédios fortíssimos para tirar a dor e baixar minha pressão. Fui liberada, voltei pra casa e fui direto pra cama.

Eis que acordo na segunda-feira, às 6h, pra chamar o Lucca para a escola e percebo que meu rosto está paralisado no lado esquerdo. Não consigo falar, e aquilo vai me assustando cada vez mais. Pensei "estou tendo um AVC"!!

Liguei para minha mãe imediatamente, que foi me buscar, e rumamos para o hospital. Dei entrada direto na emergência, e dessa vez fui atendida por um médico muito atencioso, humano e acima de tudo, preocupado. Fiz tomografia, ressonância, mil exames de sangue, exame de urina, fiquei em observação, com o médico analisando a possibilidade de ser stress, enxaqueca, microtromboses no cérebro ou, até mesmo, princípio de esclerose múltipla. No fim, o resultado foi meio óbvio: crise aguda de stress.

Mas como, se agora está tudo bem na minha vida?, perguntei para o médico. E ele me respondeu que é só depois que o "furação" vai embora é que podemos ver, realmente, o tamanho do estrago. Ou seja, como o ano de 2009 foi muito pesado para mim, e logo de cara de em 2010 eu perco minha avó e uma amiga querida (além do excesso de trabalho), meu corpo quase pediu "falência". E como dizia uma terapeuta que eu me consultava há uns anos, "quando a gente não para na vida, a vida dá um jeito de parar a gente". E foi isso mesmo que aconteceu comigo.

Conclusão: vou ter que fazer um baita check up com diversos especialistas para controlar (ou até mesmo brecar) outras possíveis futuras crises. Sem contar que eu tô batendo na casa dos 36 anos logo mais...

Bem, mas o que isso tudo tem a ver com o título??

Explico: ganhei um day spa e fui desfrutar o meu presente no último sábado. E foi muito bom!!!
Programa de mulherzinha mesmo, com direito a banhos de hidromassagem, duchas ativadoras, massagens, relaxamentos, chazinhos, frutinhas, florzinhas, e todos os outros diminutivos que nós, mulheres, simplesmente amamos. Afinal, não existe nada mais gostoso do que receber cuidados especiais!

Logo depois passei pelos serviços de manicure, pedicure, design de sobrancelhas e saí de lá, horas mais tarde, leve como uma pluma. Tanto que dormi feito um anjo o resto da tarde.

No sábado a noite fiquei pensando em tudo o que aconteceu, na obrigação de desacelerar, no dia delicioso no spa e cheguei à conclusão que é mais do que necessário que eu dedique um tempo só para mim. Quando nos permitimos pequenos prazeres, criamos uma "barreira natural" que impede crises como aquelas que tive.

No meio desse furação todo, ficou na minha lembrança uma brincadeira do médico quando, depois de analisar todos os meus exames, me pediu para abrir bem os braços e imaginar se, naquele espaço, dava para eu abraçar o mundo. Diante da minha negativa, ele sorriu e disse: "ótimo! Então ocupe esse espaço com coisas realmente importantes e de valor, como um abraço, por exemplo". Dito isso, recebi um abração e minha alta. E fui embora aliviada por saber que, dessa vez, tudo teve um final feliz.

terça-feira, 2 de março de 2010

O dom.


“Relacionar-se é vocação, difícil e rara. A concentração é contínua, o trabalho é de artesão. Um desafio delicioso”
Cinthya Verri


Com essa frase, um dos meus autores favoritos (Fabrício Carpinejar) abriu um de seus últimos textos: http://carpinejar.blogspot.com/2010/02/separacao-criativa.html. A pessoa que diz a frase nada mais é do que sua namorada e, dessa forma, conseguiu traduzir perfeitamente o "pulo do gato" de uma relação.


Só se relaciona quem tem o dom, quem tem vocação. Quem não tem paciência com o outro dificilmente saberá superar os obstáculos que uma relação tem. E também dificilmente conseguirá ter uma relação com alguém porque sua capacidade é limitada às palavras proferidas e aos "muros" que criou em torno de si próprio. Também é preciso ter tempo, já que ter alguém demanda um tempo enorme para se descobrir, para se encontrar ou reencontrar.


Relacionamento às vezes parece uma corrida de obstáculos: a cada 100m tem alguma coisa pra impedir o avanço, pra fazer voltar atrás ou simplesmente empacar, desistir. Porém, se há uma vontade em comum, a cada cancela saltada vem a sensação de paz, de recomeço.


Ter alguém é ter que engolir sapos às vezes. Ou brejos. Ou um ranário completo. Para se ter paz num relacionamento é preciso, além da paixão, um bom sistema digestivo pra digerir pedras e algodão doce ao mesmo tempo. Porque o amor é o algodão doce - aquela coisa real, mas tão delicada que se dissolve num toque. Mas se saboreada entre os dois traz a sensação doce de proximidade.


Posso até ser crucificada, apontada, criticada, mas hoje prefiro me manter num relacionamento seguro, estável, com uma série de obstáculos superáveis, do que partir para a aventura do começar de novo, e aprender quais são as "sensibilidades" do parceiro e ficar driblando, tal qual um zagueiro da segunda divisão, os medos e o desconhecido. É como tentar dançar uma valsa num quarto escuro e apertado, e sem saber onde o parceiro está. Eu gosto mesmo é do desafio diário de continuar conquistando (e ser conquistada por) alguém que está há cinco anos do meu lado.


Como disse no começo, se relacionar é dom. Mas a arte mesmo está em manter por tanto tempo a chama acesa, mesmo que ela pisque em algum momento.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Uma década de amor.


Há exatos dez anos, nesse mesmo horário - 20h10 - eu estava sentindo o primeiro aviso de que meu filho estava chegando. Foi engraçado, assustador, dolorido. Não era a hora porque ainda faltavam, pelo menos, uns 25 dias para o parto.

Na hora entrei em pânico: liguei para a médica e ouvi para eu aguardar as próximas contrações e, se começassem a vir cada vez menos espaçadas, era pra eu correr para a maternidade.

E assim foi feito. Às 5h30 da manhã do dia 23 de fevereiro eu dei entrada no Santa Joana. Às 8h48 o Lucca nasceu de cesariana, com 36 semanas de uma gestação muito tumultuada. A começar pelo princípio da própria história. Engravidei de um moço que eu estava ficando havia três meses apenas.

Foi um susto, um baque. Um mix de revolta (com direito a pergunta "por que eu??), com tristeza, com muito medo. Tudo foi complicado desde o início - contar para meus pais, ter a "anuência" do pai da criança, encarar familiares, amigos e paqueras. Naquele momento achei que minha vida tinha acabado ali.

Até que aos dois meses começou a fase mais crítica do processo porque passei a ter sangramentos como se fossem menstruação. Na primeira situação corri para o hospital mais próximo da minha casa e entre um exame e outro, pude ouvir pela primeira vez o coraçãozinho dele batendo. Acreditem: ressucitei naquele momento e decidi que brigaria a todo custo pela chegada dele.

E assim o fiz, mesmo diante de todos os dissabores que foram aparecendo pelo caminho. E olha que não me faltou obstáculo! Desde dos meus pais que simplesmente não falavam direito comigo, amigos que viraram as costas, emprego que minguou porque era freela, e o próprio pai da criança que foi me largando aos poucos e ficando com outras meninas sem se importar se eu saberia ou não.

No dia 22 de fevereiro de 2000, eu e o pai dele brigamos feio porque ele tinha que comprar um berço bacana e acabou comprando uma prancha de surf nova. Quase tive um treco, afinal, já havia pintado sozinha todo o quartinho do Lucca, arrumado enfeites, colado estrelinhas no teto, arrumado roupinhas e todas as tranqueiras que um bebê podia precisar. Bem, depois da discussão, eu passei a ter contrações. O resto já contei aqui no início do texto.

E mesmo enfrentando tantas dificuldades nessa primeira década do meu filho (fiquei solteira, o pai dele o registrou mas nunca foi um pai de fato, enfrentei desemprego, fiquei doente, ele ficou doente, etc.) uma coisa me chamou atenção - as malucas do blog De Salto Alto e Batom nunca nos deixaram sozinhos. Aliás, a Diana e a Juliana (carinhosamente apelidada de Mané pelo Lucca) estiveram presentes em momentos únicos.

Outras pessoas também fizeram a diferença ao longo desses 10 anos. Até mesmo o Zé fez a parte dele, mostrando que mais do que um pai, uma criança precisa de alguém em quem possa confiar. Adoro saber que eles são e serão grandes amigos. Sou eternamente grata a ele por dar ao Lucca o que lhe faltava.

Enfim, amanhã, quando ele abrir aqueles seus olhinhos verdes esmeralda, vou ter a certeza de que quem ganhou o presente fui eu. E foi o presente mais bonito de toda a minha vida.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A espera do adeus.


Hoje ela ia fazer um jantar para mim.

O cardápio era o meu preferido: arroz, feijão, bife à milanesa, salada de alface, batatinha frita. Aliás, esse foi o mesmo menu do meu aniversário, quando ela fez um almoço surpresa pra mim e chamou pessoas queridas para compartilhar o momento.

Hoje eu ia sair do escritório no horário, ia voar pra casa dela, ganhar carinhos, cafunés, afagos, íamos conversar, falar no meu trabalho novo, falar do Lucca - que é a paixão dela - e eu ia contar as peripécias do Lilo, que comeu duas blusas minhas.

Na hora de ir embora eu ia pegar nas mãos dela e lhe dizer o quanto eu a amava. Como sempre.

O meu jantar foi cancelado na última quarta-feira, quando a minha avó foi internada após um infarto. Daí que se seguiram mais dois, arritmias, falência de um pulmão, de um rim, sedação, e ela não voltou mais, entrou em coma.

Acredito que em poucas horas ela vá embora em definitivo. Porque aquele corpo que está lá, cheio de fios, tubos, catéteres não é mais a Vó Nora. Não a minha Vó Nora!

A minha avó se levantaria dali, resmungando, é claro, mas iria passar um café bem forte pro Vô Mello e pra mim, e ia fazer bolinhos de chuva e depois sentaria comigo e riria das minhas bobagens. A minha Vó Nora ia me abraçar bem apertado e eu ia sentir o cheirinho dela e alí, no seu colo, eu estaria bem protegida. E o Vô Mello sorrira confortado por saber que não existe amor maior do que o nosso.

Ou melhor, existe sim.

O amor dos dois é o maior amor do mundo: são 65 anos de casados, completados em julho passado, mais os tais dois anos de namoro. Nunca vi os dois discutirem, nunca ouvi um palavrão, uma picuinha. Na matemática da vida em que a soma de dois resulta em um, eles se fundiram.

Por isso, a minha preocupação agora é ele. Porque uma parte dele está morrendo e, no alto de seus 89 anos, ele não vai ter mais quem passe seu café forte logo após o almoço. A conversa da noite, diante da tevê, será um monólogo. Pra quem ele vai fingir que é surdo, só para que ela falasse bem perto de seu ouvido??

Os doces, os presentes, o carinho, vai pra quem agora?? Não valerá mais a pena comprar o Estadão de domingo porque o Suplemento Feminino vai ficar jogado num canto.

Eu estou perdendo a minha avó. Ele está perdendo a razão de viver.

Não posso ser injusta e sei que a missão dela está chegando ao fim. Ela viveu por quase 86 anos (seu aniversário seria em 18/2), uma vida boa, sem privações severas, ou problemas insolúveis. Passeou, viajou, conheceu lugares legais. Teve quatro filhos, sendo que a mais velha morreu no parto. Dos outros três filhos, ganhou seis netos e quatro bisnetos. Sou a neta mais velha e mãe do bisneto mais velho. Ela amava a todos, mas eu, sem modéstia nenhuma mesmo, era sua paixão. Quando o Lucca nasceu, perdi o meu posto de preferida.

Não tenho medo, nem vergonha de dizer que a amo mais do que a minha mãe.

Assim como também não tenho a menor vergonha de estar, em pleno escritório, chorando ao escrever esse post.

"Vó Nora, minha amada, minha querida, minha mãe, vá com Deus. Siga para junto do Pai, Lá seus irmãos estarão te esperando. Não olhe pra nós, porque somos egoístas e estamos chorando sua falta. Olhe pra frente e veja que o Céu está em festa. Mais um anjo está voltando pra casa".

Da sua filhinha,

Andréa

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A.I. 5 ou recado.


Fui censurada.

Achei que essas coisas aconteciam somente com aqueles que mexiam com figurões da política, ou com "coronéis" de qualquer segmento.

Mas aconteceu comigo.

No fim do ano passado postei um texto falando sobre o orgulho que sinto do meu pai e contando sobre as dificuldades que passamos ao longo de quase três décadas. Dificuldades que ele superou uma a uma com maestria.

Daí que escrevi um parágrafo mencionando - vejam bem, mencionando - algumas de suas conquistas materiais, sem dar grandes detalhes, e fui censurada. E eu só queria amarrar meu argumento com um gran finale.

A desculpa para a censura esbarra na questão da privacidade, que esbarra na questão da violência e que esbarra na questão da ordem e dos bons costumes.

Ouvi alguns desaforos e daí tirei hoje o tal parágrafo do texto, conforme a "solicitação" do meu censor. E a minha intenção era expor, aqui, e de forma muito positiva, aquele que é um dos meus maiores exemplos de vida.

Talvez seja difícil para outras pessoas saber que eu amo meu pai e que ele, do jeito torto dele, também me ama. E que não cabe mais ninguém - de fora - no meio dessa relação.

Fui dormir repensando certos conceitos, assim como algumas relações humanas, que são cheias de sombras de pessoas que sobrevivem da inveja e do ciúme.

Ao acordar hoje ainda estava com raiva do real mandatário da ordem de censura. Com o passar das horas pude perceber que sou melhor do que essa pessoa, sem nenhuma modéstia mesmo.

Eu sou assim, desse jeito que vocês estão acostumados a ler/ver: se estiver triste não vou publicar uma piada, se estiver feliz, meu texto não será sombrio. Se eu precisar de socorro, vou gritar e estender a mão, se tiver alguma coisa boa pra passar, tenham a certeza de que estará aqui também.

O meu censor queria que eu deletasse o blog. Pensei em até enviar a ele os emails que recebo de gente de todo o tipo, me incentivando, me elogiando ou até mesmo me criticando com o firme propósito de fazer com que eu cresça ou só contando que meus textos tocam fundo no coração. E olha que eu sou só mais uma na blogesfera.

Desisti da idéia.

Amo escrever, amo saber que tenho leitores fiéis, e que viraram amigos que são escudeiros de verdade. Amo a minha liberdade de expressão.

Já me fizeram ficar em silêncio muitas vezes, mesmo quando minha alma berrava dentro de mim. Mas dessa vez não vão me calar.

Porque não cabe o que tem de bom dentro de mim.
Principalmente no quesito caráter e honestidade, já que não me escondo atrás de outras pessoas para emitir minha opinião.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Feliz 2010, desventuras em série e um pedacinho da história da minha vida.


Tirei férias.

Na verdade, me dei férias. Achei que precisava de um tempinho do tipo eu comigo mesma (ops Rafa, desculpe, mas precisei emprestar a expressão) e daí juntei minhas malas, as do meu filho, mais a tranqueirada do Lilo e fomos rumo ao litoral paulista.

Nada de glamuroso - fui para a Praia Grande mesmo - porém, com a promessa de descansar mesmo, desligar de tudo e de todos. Aliás, peço desculpas aos que me mandaram emails, mensagens e tentaram me ligar e não conseguiram. Por razões que só a tecnologia 3G da Claro conhece, nem meu celular, nem minha internet funcionavam dentro do meu apartamento.

Mas pensando bem, melhor assim, já que pude estar mais tempo sozinha, sem interferências externas.

Tirando as desventuras em série, que eu mecionei no título e que daqui a pouco detalharei, posso dizer que minha virada não teve nada de especial: não comi lentilhas, embora a minha amiga Jéssica tivesse levado para a ceia (e todo mundo disse que estava maravilhosa), não guardei uma folha de louro na carteira pra ter mais dinheiro, não comi as uvas, não pulei num pé só, não joguei flores no mar. Também não fiz promessas porque não quero ficar devendo nada pra mim mesma. O verbo que vou conjugar em 2010 é REALIZAR!!

Acontece que mesmo abrindo mão de todos os rituais e simpatias, não deixei de lado o hábito de agradecer tudo o que aconteceu ao longo do ano passado. E como no texto anterior fiz uma brincadeira listando tudo aquilo que perdi, resolvi agradecer assim mesmo.

Porque foi com os tombos e tropeços que aprendi, que cresci, que amadureci. Claro que os conselhos dos amigos queridos, as conversas, os desabafos também valeram. Mas de toda a lição que 2009 deixou, talvez a mais importante tenha sido a de nunca mais esquecer de olhar para mim antes de qualquer coisa. Ter a certeza daquilo que eu quero ou das coisas que eu realmente não faço questão é muito bom.

E hoje, logo nos primeiros dias do novo ano, eu já tenho comigo uma listinha do que eu não quero. E entre elas está o fato de que eu não quero mais do mesmo. Ou seja, ou será diferente, importante, intenso, ou simplesmente não será. Cansei do tudo bem, do OK, do deixa pra lá.

Como disse no texto anterior, em que sabia que talvez perdesse mais alguma coisa nos últimos dias do ano, de fato perdi. E dessa vez foi o namorado.

Na hora chorei, fiquei triste. Ainda acho que estou triste. Mas vai passar, eu sei. Porque dessa vez eu quero mesmo que passe. Porque simplesmente não dava mais pra continuar cultivando erva daninha num terreno tão fértil e tão bom como é meu coração!

Não me arrependo nem um minuto por ter amado tanto alguém que por muitas vezes mereceu meu amor. Mas como sabemos, tudo tem um ciclo e eu precisei ir até o fim pra realizar o fim, pra entender e aceitar. E a dor e a tristeza viraram lembranças de um passado bacana, em que eu tive um cara muito legal ao meu lado. Pena que acabou - tanto a época, quanto o brilho dessa pessoa.

Com tudo isso - aceitação, reconhecimento, perdão - percebi que explodiu dentro de mim, de novo, aquele "mulherão" cheio de certezas e seguranças, medos, suspiros, sonhos, e muita força, exatamente como eu era há uns dez anos. E eu fui invadida pela paz.

E é essa paz que eu quero transmitir para todos, para que 2010 seja, assim, um ano memorável, farto de realizações.


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Bem, o título também se refere às desventuras em série. É que quando planejei viajar para a praia, na minha cabeça seria apenas eu, meu filho e o Lilo (minha calopsita). Daí que quando eu já estava praticamente a caminho da estrada, o ex lembrou que havia convidado um casal de amigos nossos para passar a virada conosco, e eles (sem saber de nada, é claro) já estavam fazendo planos para ceia e tudo mais. Conclusão: o ex que não ia para o mesmo lugar que eu, foi, os amigos também foram (e eu adorei ter o Bruno e a Jéssica na minha casa) e ficamos todos juntinhos, no mesmo apartamento - o meu, no caso.

Diante das circunstâncias, o ex resolveu que eu tinha que fazer um tender, já que ele considerou que seria pouca comida para todos nós. A resignada aqui saiu, então, em busca do tender perdido, em plena Praia Grande, num 29 de dezembro. Achei um bem pequenininho, do tipo Bolinha. E foi ele mesmo o escolhido (e ficou uma delícia!!).

Bem, passamos a ceia com outros amigos queridos, o Fábio e a Meire e a quantidade de comida que tinha lá eram absurda!!! Dava para mais umas 10 pessoas comerem tranquilamente e ainda sobrar.

Faltando uns cinco minutos para meia noite e rumamos todos para a praia.

Meia noite em ponto estouramos os champagnes e brindamos e nos abraçamos, e São Pedro já dava alguns sinais de mau humor com uns pinguinhos de chuva (ainda bem que não tinha feito chapinha...). Os fogos foram poucos e minguados. Quase um mico.

Fui pro mar fazer minhas orações a agradecimentos debaixo de chuva. Não pulei ondinhas porque simplesmente o mar resolveu não mandar nem marola pra mim. Achei melhor deixar pra lá.

Quase quatro da manhã acordo me sentindo mal, como se não tivesse feito a digestão. E eu nem tinha jantado direito!!! Resumo: peguei a tal da virose que provoca "problemas" gastrointestinais e passei dois dias no vaso, quase como uma flor!

No meio disso tudo acabou a água no meu prédio e a solução do caso virou um empurra-empurra entre SABESP e o síndico. E eu com piriri e visitas em casa!!! Sem contar que o primeiro dia do ano amanheceu sob um dilúvio!

SOCORRO!!!

Justamente por estar malzinha, o ex se plantou lá em casa, depois de me levar remédios e gatorade. Daí, quando melhorei, quem caiu de cama (ou dominou a privada) foi ele. E lá se foram três dias de sofrimento: ele jogado, ora na cama, ora no sofá, e eu lá, sem aproveitar minhas férias... Teve até um dia que, vendo o circo pegar fogo, saí e fui comprar qualquer besteira no mercadinho perto do prédio. Só pra poder respirar um pouco. Voltei pra casa com uma sacolinha com papel higiênico e cigarros. Pro ex, é claro!

Ah! já ia me esquecendo... ele tem uma cachorrinha, que detesta o Lilo, e também ficou lá em casa. A coitadinha não tinha culpa de nada, era outra vítima alí no meio da situação toda.

E antes que eu me esqueça, preciso dizer que o ex se instalou lá em casa mesmo tendo um apartamento na rua imediatamente anterior a do meu prédio, e ele, claro, fez cara de carranca todos os dias que ficou por lá.

Por fim, o moço me pediu carona para voltarmos a SP ontem e eu pude, enfim, despejar tudo aquilo que eu senti, sinto e ainda vou sentir por ele. Nada como 50 minutos de volante para tornar o discurso mais empolgante...


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O pedacinho da história da minha vida aconteceu de forma inesperada. Fui visitar uma escola que estudei a minha vida toda, com o objetivo de matricular o Lucca lá, e me deparei com lembranças lindas e tão vivas que me emocionei. Como numa volta ao passado, vivi cenas da minha história através de paredes, quadros, espaços, pessoas. E o melhor foi o diretor da esola lembrar de mim na hora e soltar um "claro que me lembro de você, Andréa Mello, afinal você era uma boa aluna, mas também era terrível".

Nem fui ver as outras escolas da lista. Tem coisas que são tradicionais e o ensino lá ainda é o mesmo. Se eu me senti acolhida, imagino que o Lucca também irá se sentir assim.


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Bem, pra concluir só quero que saibam que umas das coisas que jamais abrirei mão é dos meus amigos, sejam eles os companheiros do dia a dia, os que estão longe, ou os virtuais (que são tão importantes quanto os outros).

Eu, sozinha, até resolvo meus pepinos. Mas cercada e abraçada por vocês, meus amigos, sou a pessoa mais forte do mundo!!!

Então, um brinde à amizade e outro à vida.

E que 2010 nos traga novos desafios e muitas conquistas!!