segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Então é Natal


Este ano não montamos árvore lá em casa.

Também pudera... com tantas caixas da mudança dos meus pais a coisa ficou difícil. Se bem que minha mãe já levou boa parte das "bugigangas" para o outro apartamento.

E para não ficar em brancas nuvens, colocamos uns enfeitinhos pra dizer que o Natal também chegou por alí.

Na verdade, tanto eu como meus pais gostaríamos de estar cada qual em sua casa, mas a demora na entrega dos móveis deles, o gesso que atrasou, o pintor que não foi no dia programado e mais uma série de outros imprevistos impossibilitaram o Natal na casa nova. Resumo da ópera: vamos ficar na minha (opa!) casa velha.

Tudo bem, tem Natal no Ano que vem...

Porém, acho que foi melhor assim. Vamos passar todos juntos, como sempre fizemos, desde que o mundo é mundo. Vamos ter tempo pra desejar que o espírito do Natal se faça presente e que todos nós possamos renascer para um novo ciclo de mais união e companheirismo entre nós.

Explico: meus pais vão se mudar e eu vou ficar nesse apartamento que moramos, junto do Lucca e do Fábio, meu irmão, que segue sua vida, em sua casa, lá para abril ou maio.

Vamos nos separar. Todos.

Vou experimentar, pela primeira vez, o sabor de ter que ligar para meus pais todos os dias para saber como eles estão. Vou saber como é chegar em casa e não ter tudo pronto, tudo arrumado, tudo certo. A única certeza que haverá será a minha absoluta falta de experiência nisso tudo. E juro, embora esteja com uma pontinha de insegurança (hehehe), estou adorando.

Outra certeza que tenho é que morar em casas separadas vai nos aproximar. Porque a distância é o termômetro da união: você tem que fazer um esforço muito maior para se manter atualizado, constante, próximo, unido de quem está longe (ok, nem é tão longe assim... é só um bairro).

Meus pais também vão sentir a mudança, ainda que o Lucca fique com eles após a escola e até eu chegar para buscá-lo.

Por isso, o Natal deste ano será especial: porque escolhemos de presente seguir nossas vidas em paz, delimitando nossos espaços físicos e emocionais. Porque escolhemos crescer, cada um em seu estágio da vida. Porque este é meu pontapé inicial para me firmar como mãe e não mais como filha.

Porque este é o primeiro passo para meus pais viverem aquela fase do "ninho vazio", não na sua conotação negativa, mas sim, com todas as possibilidades de serem muito felizes: conversando mais, permanecendo mais tempo juntos, não tendo filhos por perto para se preocuparem com 'quem vem jantar' ou se 'fulano come isso', ou ainda 'de quem serão essas meias?'.

Enfim, acho que a mudança deles não saiu porque tínhamos que comemorar este último Natal assim, juntos, como uma família só. A partir no ano que vem, eu vou fazer o pavê, o Fabinho vai assar o pernil e vamos levar para a casa dos meus pais, que vão nos receber com aquilo que eles têm de melhor: amor incondicional.

Além de uns bons vinhos, um espumante e mais todo aquele exagero de comida que eles insistem em providenciar, é claro.

Por isso, deixo aqui meus votos de Feliz Natal a todos!!

E que os presentes que vocês escolheram ao longo do ano sejam proveitosos e os façam muito felizes. E caso não sejam, que todos repensem em suas escolhas.


Beijo Grande,

Andréa


PS: já vou deixando essa mensagem porque amanhã ainda trabalho. E quando chegar em casa, vou assar um bolo de avelãs, fazer o mix de castanhas com frutas secas, cuidar para que o Lucca não abra nenhum presente antes da hora...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O presente.


Não canso de bradar o quanto 2008 foi bom para mim.

Ano difícil, cheio de curvas, obstáculos, reviravoltas.

2008 foi um ano cheio de presentes também. Mais do que bolsas, calçados, carro, casa, me dei de presente uma viagem sem volta. Entrei pelo caminho do auto-conhecimento, claro, com auxílio profissional.

Mas só fiz isso porque achei que era o momento, porque era necessário. Fiquei meses com o telefone da psicóloga anotado na minha agenda.

É preciso ter coragem para se descobrir, para se enxergar nua, dissecada, com tudo o que você carrega há anos: vícios, qualidades, ransos, manias.

Mas para que isso surta efeito, também é preciso se amar muito - mesmo que a auto-estima esteja no calcanhar.

Porque só se descobre quem se ama. Mesmo que o amor esteja por fiozinho, já vale a pena.

Porque daí a gente vai buscar aquilo que não conhecia ou não sabia que tinha guardado, armazenado em algum espacinho. Porque a gente aprende com os próprios erros.

E daí o mundo se abre e gente nova chega, oportunidades bacanas aparecem, a vida parece menos enfadonha, menos pesada.

Durante esse caminho sem volta, iniciado há seis meses, ganhei vários presentes: auto-estima renovada (ok.. falta eliminar uns quilinhos ainda pra ficar nota 10), fiz as pazes com meu pai, meu irmão está cada dia mais próximo de mim, minha relação com meu filho vai de vento em popa e até mesmo a "Esfinge" andou baixando a guarda. Quando a gente muda, a vida toda se renova a nossa volta.

Nesse tempo todo aprendi lições preciosas, doloridas, engraçadas. Conheci gente banaca, diferente, gente com "dores" maiores que as minhas, mas que não deixa de sorrir sempre. Gente que veio por meio desse blog e ficou de vez na minha vida. Gente que eu já conhecia, mas me pareceu muito melhor depois desse blog.

Agradeço a cada um por ter me ajudado a melhorar um pouquinho, todos os dias.

Agradeço as poesias, os contos, as músicas, as histórias que li durante esse ano. Tudo isso teve um profundo sentido para mim (mesmo não tendo sido produzidas para mim). Porque me tocaram e, de certa forma, me incentivaram a tomar rumos desconhecidos.

Cada linha da Carla, com suas irremediáveis cutucadas, a doçura da poesia da Luciana, as músicas e textos do Rafa - tudo tão lindo, tão sublime, tão sincero e delicado - me fez ver um mundo real, do qual pertencia desde sempre. Mas eu andava tão cabisbaixa que era impossível ver todas essas lindezas.

Em 2008 ganhei muitos presentes, mas o melhor de todos foi ter escolhido a mim para ser feliz.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Ritual


Acorda.
Vai para o banheiro, olha no espelho, ajeita o cabelo.
Toma banho: shampoo, esfoliante, água quente, água fria.
Sai do chuveiro, olha no espelho, arruma a franja.
Desembaraça o cabelo.
Se seca e abre o guarda-roupa.
Enquanto pensa, se olha no espelho, nua, prende o cabelo, encolhe a barriga.
Suspira.
Escolhe o creme que combina com seu estado de espírito.
Olha novamente para o guarda-roupa.
Veste um lingerie. Olha para o espelho e aprova o que vê.
Suspira e encolhe a barriga.
Prova um vestido, depois outro. E mais um.
Resolve por uma calça e uma blusa.
Olha no espelho e suspira.
Volta ao primeiro vestido, que combinará melhor com as sandálias.
Olha para o relógio e se vê atrasada.
Engole um suco, com uma fatia de pão.
Olha para o bule e toma uma xícara de café.
Escova os dentes correndo, mas olha para o espelho e ajeita a franja.
Sai implicando com a bolsa, pegando as bijouterias e maquiagem.
Entra no carro, dá a partida, liga o rádio e olha para o espelho retrovisor.
Se maqueia no trânsito, entre um semáforo e outro.
Chega pronta ao trabalho.
Todo dia ela faz tudo sempre igual: é o seu ritual.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Últimos dias.


Vou confessar: tem sido bem mais difícil do que eu imaginava vencer esses últimos dias.

Por mais que a gente saiba em que pé estão as coisas, juro, não estava preparada. E ainda não estou.

Lições como essas que você está me ensinando são difíceis de assimilar. Principalmente porque envolvem a perda. E, convenhamos, ninguém gosta de perder. E mesmo que fosse uma perda eventual já seria triste.

Agora, imaginar que não terei mais sua voz, seu olhar, seu silêncio é demais para mim. Imaginar que não te verei mais na pracinha, com o cachorro na coleira, ou na loja "das meninas" comprando novidades, dá medo e abre um abismo dentro de mim.

Não sei aonde vou te achar.

O certo é que vou te cultivar em minhas lembranças como a mais valiosa das lições.

Penso que você tinha mesmo que ter entrado em minha vida. Penso que não o fez antes porque não era a hora. E não estava "madura" para entender as coisas.

Há um sentido claro: tenho um péssimo relacionamento com minha mãe que, ao meu ver, me parece a Esfinge.

Você é falante, aponta erros e enaltece virtudes. É mãe. Tem senso de humor, tem amor, tem sua individualidade na medida. Vive sua vida sem querer incomodar os outros. E agora que precisa da ajuda alheia, se sente incomodada. Roga para que o sofrimento cesse e que ninguém mais precise intervir.

Hoje você pediu para ir embora. E eu chorei porque sei que foi sincero.

Só você sabe da sua dor, afinal, são anos sambando descalça no fio da navalha. Passando pela vida na ponta dos pés, para não acordar a dor alheia, que dorme um sono leve.

Esses últimos dias têm sido tristes. Porquei sei que a hora da partida está perto. E juro, a partir disso, vou te buscar em cada botão daquela sua orquídea preferida. Só pra te ver renascer a cada primavera.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Pouco.


Talvez o que eu tenha te dado tenha sido pouco.
Acho, sinceramente, que você merecia mais.
Mas também, convenhamos, não tive tempo. Na verdade, não houve tempo para ter "nós".
Cada um seguiu sua vida, com seus dias passando, sua vida se desenrolando.
Não sei, mas acho que faltou algo. Aliás, faltaram muitas coisas.
Penso que podia ter sido mais próximo, ter um sorriso mais bem colocado, um risinho de vontade, um beijo de cantinho de boca, um beijo na boca.
Penso que os olhares não precisavam ser privados - a gente bem que podia ter se olhado mais. Se consumido mais. Porque eu tenho vontades... muitas vontades. Inclusive de fazer brilhar esses seus olhos lindos, de ser merecedora dos seus sorrisos, de seu silêncio contemplativo, de dar continuidade a sua vida.
Mas não houve brecha. Ninguém baixou a guarda.
Faltou oportunidade. Ou vontade mesmo, sei lá...
O que eu sei é que você ainda vive aqui dentro. É como uma garoa, que seca rapidamente na pele, mas que deixa úmida toda a roupa.
E agora talvez seja um pouco dificil tirar você dos meus pensamentos.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Feliz Ano Velho!


Ontem eu estava ouvindo o programa "Sala dos Professores", da Rádio Eldorado FM, e o locutor, Daniel Daibem, falava a respeito da 'correria' que as pessoas vivem durante o final do ano.

Escutei aquilo e parei para pensar a respeito (estava no trânsito - parado- naquele momento).

É batata!!

Pergunte para qualquer um como estão as coisas durante esse período que precede as Festas e a pessoa dirá que está "na correria..."

Tenho a impressão de que a virada de ano foi antecipada para o Natal, e que os últimos dias do mês de dezembro se tranformaram na reta de chegada de uma grande corrida. Por que, afinal, as pessoas correm tanto?? Para onde elas vão?? Cadê a linha de chegada? Qual é o prêmio?

Juro, com um cenário desses me sinto pilotando um Ford 29 no meio de carros de Fórmula 1!! E isso me assusta!!

Nessa época parece que todos estão numa tensão danada, querendo se livrar do ano que viveram. A frase mais ouvida, e a que eu mais detesto, é entoada como um mantra: "não vejo a hora desse ano terminar".

E isso me enfurece!!!

Gente, será que em 12 meses nada de bom aconteceu?? Nada, nadica, nadinha??

Vai dizer que não teve nenhuma tarde gloriosa de sábado, numa esquina ensolarada, brindando a vida com amigos?? Ou vai dizer que não teve aquele encontro mágico, com uma pessoa especial? Não ouviu nada de bom, não assistiu nada de interessante, não encontrou parentes queridos?

Também não teve a sobremesa predileta, o prato preferido, preparados com carinho por alguém que te ama?

Nem seu cachorro fez festa quando você chegou em casa cansado, depois de um dia 'daqueles' em seu emprego novo? Você também não trocou de carro, de celular, nem comprou aquele tênis maravilhoso? Não viajou, nem foi a nenhum parque, nenhuma praia bonita, não foi a nenhuma balada legal?

Impossível!!!

Será que só sobraram as mágoas, os corações partidos? Ou, a essa altura, só sobressai a lembrança da dieta que você não fez, do cara bacana, mas não tão bonito, que você não deu bola? Será que o peso dos obstáculos que tivemos que superar é tão maior do que as lindezas que vimos espalhadas aos longo de 365 dias?

Não sei, mas acho que estou fico meio nostálgica nessa época. Porque, para mim, todos os anos sempre foram muito bons. E de todos tenho saudades: o melhor verão, as férias de julho, o ano do vestibular, o primeiro namoro sério, o nascimento do Lucca, a perda de meu avô, e mais um monte de outras coisas que se passaram nesses últimos 34 anos. Haja história - boa ou não, não importa!!

Por isso eu celebro o ano que está indo embora. Porque foi muito bom (e quem me acompanha sabe das minhas conquistas e das minhas quedas), porque eu aprendi, porque eu cresci e e subi mais um importante degrau.

Por isso, vislumbro agora que belo ano novo que está chegando, com todos seus desafios e obstáculos.

Por isso, Feliz Ano Velho!!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Atrás do espelho


Ela já não sabia mais o que fazer para ser notada.

Na verdade, ela tentou de tudo: fez poesia, "cantou" o moço, ofereceu-lhe seus sorrisos mais largos, mais sinceros, mais gostosos.

Nada adiantou.

Embora ele fosse sempre muito cordial, nunca correspondia aos anseios dela.

Na verdade, ela descobriu que ele estava apaixonado por outra pessoa. Por isso, ela se afastou.

E continuou acompanhando o moço, dia após dia, de longe.

Mas, ao contrário de seguir feliz, ele passou a ter dias tristes, escuros, pesados.

Tinha a impressão de que ele sofria por aquela outra paixão que, por sua vez, não correspondia aos desejos dele.

E ela, de tão longe que estava, nada podia fazer. E aquilo lhe doía na alma porque se sentia como se estivesse por trás do espelho dele: por mais que olhasse em sua direção, ele nunca a enxergaria.

Até que um dia resolveu tomar uma atitude. Deu um jeito de aparecer em seu caminho, na saída de seu trabalho.

Para isso, foi visitar um cliente naquela região. E foi muito bem vestida, arrumada e decidida a colocar um fim naquela falta de visão do moço.

E assim o fez.

Interpelou o moço em plena calçada:

- Olá! Que coincidência!

- É... E você? O que faz por aqui?

- Vim resolver um assunto muito importante.

- Imagino que seja importante mesmo, afinal, você está muito bonita.

Ao ouvir a frase, ela se encheu de coragem e teve uma idéia:

- É realmente importante! Por isso mesmo já vou indo.

- Já?

- Sim.

Nisso ele a abraçou e daí não viu mais nada porque ela simplesmente o beijou. Segurou seu rosto e beijou com vontade, com tesão, com tudo o que havia guardado há tanto tempo.

Daí virou as costas depois do beijo e foi embora porque senão corria o risco de querer se entregar a ele no meio da rua.

Saiu dali feliz e entrou no carro com o coração aos solavancos. A partir daquele momento ela passava a existir. Tinha saído de trás do espelho.

Quanto a ele? Ela não sabia dizer porque ele havia ficado parado, sem entender nada, sem pronunciar uma palavra sequer.

Não precisava. Afinal, ela tinha conseguido colocar um pingo de cor nos dias cinzentos daquele moço.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Um lugar novo


Tem um lugar novo que eu estou começando a frequentar.

É um espaço pequeno ainda, modesto, mas que me dá um prazer danado.

Se você quiser conhecer, passe lá: http://artesdadiniz.blogspot.com/

Esse é o blog Entre Outras Atividades que eu criei para falar de uma paixão: os meus artesanatos.

Aos poucos vou colocar fotos, contar truques e técnicas que eu criei (e até mesmo modifiquei!).

Quero contar do meu mosaiquinho com cascas de ovos que eu aplico em garrafas de vidro (aquelas de azeite), quadros e enfeites feitos com toquinhos de piso de madeira, e mais um monte de coisas.

Antes isso tudo era só pra mim. Agora quero compartilhar com todo mundo.

Porque não cabe o que tem de bom dentro de mim!


OBS: esse lacinho da foto foi feito com macarrão tipo farfalle, pintado com corante e o acabamento leva ráfia e pimenta seca.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Não buzine aos domingos.


Acordei ontem em pleno domigo, às 7h, com um estridente barulho de buzina.


Bem, para quem que moro no 9º andar e, cuja janela do quarto dá para os fundo do prédio, aquilo era, de fato, um buzinaço.

Juro, achei aquilo o fim da picada. Nem o funk pacadão do vizinho da casa ao lado é tão desrespeitoso quanto aquela buzina.

Levantei o fui ver o que estava acontecendo. Alguém que tentava sair de um estacionamento buzinava para o outro que havia parado bem na porta da garagem. Detalhe: esse estacionamento fica embaixo de um banco e o dono do carro estacionado estava dentro do banco. A ação toda não durou mais do que três minutos. Mas foi o suficiente para acordar a mim (e mais outros tantos vizinhos).

Ok! O homem da garagem precisava sair - seja por qual motivo fosse - mas quando ele viu que o outro saiu do caixa eletrônico do banco, buzinou mais ainda, com mais força, mais vigor. E o outro, por sua vez, partiu lentamente, como se não quisesse sair dalí.

Não vou discutir aqui a razão de ambos os senhores porque não estava correto aquele que parou "rapidamente" na porta da garagem, nem aquele que enfiou a mão na buzina.

O que vou colocar em xeque aqui é o respeito. Ou a falta dele.

E isso tem sido uma constante em nossos dias. Ninguém mais quer saber da tal linha tênue que separa o seu espaço do terreno do próximo.

Aliás, tirei o domingo para observar isso. Enquanto pintava meus artesanatos lá na lavanderia (porque meu espacinho está ocupado com caixas de mudança), olhava a rua (mais precisamente, a avenida) e pude concluir que as pessoas perderam o espírito do domingo, do descanso, da amizade, da paz. E daí buzinam!!! Por qualquer coisa!!! Haja estresse!!!

Sinceramente penso que deveria existir uma lei que impedisse as pessoas buzinarem à exaustão. Principalmente aos domingos. A não ser que fosse para chamar os outros à rua e comemorar a amizade e a vida!




quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Calvin, Haroldo e o Lucca

Lá estava eu, navegando pela web, quando me deparei com um blog no mínimo interessante.
Trata-se do Topismos.
Isso mesmo: Topismos (http://topismos.blogspot.com/)
O autor é um aficcionado em TOP´s. E o último Top 10 postado foi sobre Calvin & Haroldo.
Caso você more em Marte e não conheça, Calvin é um garoto de 6 anos, com uma imaginação vívida, acompanhado por um tigre de pelúcia que, quando sozinho com ele, se faz vivo e perspicaz.
Bem... eu sou absolutamente maluca por esses dois personagens. Tanto é que, muito antes de engravidar, eu dizia que queria ter um filho igual ao Calvin.
Às vezes acho que meu pedido foi atendido... É que o Lucca tem umas tiradas tão engraçadas que comparações são inevitáveis.
A última foi que agora ele tem alergia a banho... tudo para não ir para o chuveiro!!! E é claro que, uma vez molhado e ensaboado, preciso pedir que saia do banho umas 30 vezes até que que ele me obedeça.
Teve também o dia em que ele achou que não precisava mais ir pra escola porque já tinha passado de ano. "Pra que ir, mãe? Minhas notas estão muito boas!".
Sem contar as fantasias.
A onda agora é Star Wars - ora tenho o Darth Vader na sala, ora recebo o Luke Skywalker para jantar e tem também o C3PO no banho, os StormTroopers impedindo a confeção das tarefas de casa e por aí vai. E eu sou sempre a princesa Padmé porque ele acha a mais bonita.
Como uma criança de 8 anos, ele cria as mais diversas situações e, claro, deixa a sala, o quarto, a cozinha, o banheiro, sempre uma bagunça.
E sabe de uma coisa?
Eu A D O R O!!!
E tem mais: confesso aqui que nasci pra ser mãe.
Ô dadiva maravilhosa!!!
Bem, e pra não fugir do tema, segue o Top 10 do Calvin & Haroldo com lições para toda a vida:
10) Não existem limites se você quer ser escritor

9) Se acordar é inevitável, tente aproveitar ao máximo seu tempo na cama

8) Praticidade é tudo


7) É sempre importante falar a verdade em família


6) Existem fronteiras para aprender matemática


5) Você nunca sabe o que vai te levar ao limite

4) Sempre finja interesse nos outros

3) Se a vida te dá limões, fantasie-se de cebola


2) Quando tudo der errado, use sua imaginação


1) Não há nada de errado em ser um pouco crítico







terça-feira, 25 de novembro de 2008

Sobre erros, perdão e saudade.

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que isso não é uma carta de amor, muito menos um tratado sobre o perdão.

Não estou, por estas linhas, pedindo perdão.E também não sou a dona da razão, por isso, a sinceridade que virá terá tanta intensidade quanto eu achar necessário. Aliás, preferi escrever porque corria o risco de você não me escutar. E escrevendo sou melhor, mais forte.

Há mais de um ano nos declaramos mortos - um para o outro - e fingimos enterrar tudo o que sentíamos.Sobraram acusações, raiva, um sentimento de traição, deslealdade total.

Ficou a mágoa. Presente nesses quase 14 meses de silêncio sob o mesmo teto, ela foi a testemunha de muitas situações. Pelo menos de minha parte, já que de você não posso falar, não sei.

Todas as vezes que eu chegava ou saia e você estava lá, todas as minhas conquistas e as suas também foram em silêncio.

Faltou algo.

Mas você foi enterrado naquele dia tão triste - ficou presa em minhas memórias sua expressão de raiva (diante de seu próprio erro e da minha indignação).

Volto a falar de mim: aquilo foi mais forte do que um soco na boca do estômago. Foi a negação de tudo o você havia me ensinado a vida toda. Tudo o que eu sabia de vida tinha sido por suas mãos. Tudo o que eu queria ser - até aquele momento - era exatamente como você.

Dalí por diante eu não sabia mais nada.Tive que decidir sozinha alguns rumos, tive que dividir sozinha algumas conquistas.Você estava enterrado vivo - andando, falando, almoçando na mesma mesa aos domingos e durantes os jantares.

Passei a evitar esses encontros, assim como passei a evitar seu olhar.

A mágoa ainda me corta.Foi como descobrir que o meu super-herói era, na verdade, um personagem falso. Dalí em diante ninguém mais me salvaria e meu mundo estaria em perigo constante.

Mas, sabe, não foi bem assim. Tenho "pernas" e vi que posso andar sozinha e chegar aos meus objetivos sozinha, sem ninguém segurando minhas mãos.

Cresci muito nesses 14 meses. Aprendi muito. Amadureci também e tomei decisões importantes. Dei passos largos e aos poucos estou alcançando alguns objetivos.

A adversidade e a dificuldade foram importantes degraus.

Embora você ainda me veja como uma adolescente, já sou uma mulher: estou com 34 anos e meu filho vai fazer 9 anos daqui a três meses.

Diante disso, penso que você sentiu a mesma coisa há nove anos atrás. Seu mundo deve ter ruído e a mágoa deve ter tomado conta de seu coração.

Mas ao contrário do que aconteceu comigo, a sua mágoa se transformou em presente.Duvido que seu neto seja uma coisa ruim em sua vida. Ele, na minha opinião, veio para por cada um de nós diante de nossos verdadeiros caminhos - independente das nossas escolhas.

E até nisso somos iguais: continuamos insistindo em caminhos errados até quebrarmos a cara.

Eu assumi meus erros e aprendi. Na dor, é claro. Não posso falar por você.

E agora penso que já está mais do que na hora de te "ressuscitar", te trazer de volta aos meus dias. Principalmente agora, que vamos ficar fisicamente separados, cada um em sua residência, seguindo sua vida, seu destino.

Por isso, eu queria te dizer uma coisa: eu estou com saudades.

Você fez falta no meu futebol - não tinha com chorar a queda o nosso time pra série B e também não tinha ninguém para comemorar a volta.

Não te desejei feliz ano novo, não rimos das nossas piadas, você não esteve comigo quando comprei meu carro, nem ponderou sobre minha decisão de morar sozinha. Você também não estava perto quando levei a vovó América para o hospital e precisei segurá-la sozinha para passar aquela sonda horrorosa. Naquela noite chorei desejei seu colo. Assim como, quando os médicos estavam "batendo cabeça" com relação ao tratamento dela, e seu estado só piorava, vi você chorando e quis te abraçar. Dói perder alguém.

Teve também o dia da entrega das chaves - aquela festa bonita e você, feito criança, indo de um lado para o outro, com os olhos brilahndo diante da sua mais nobre realização. Você, alí, era o protagonista. E eu te aplaudia por dentro com mil mãos.

Naquela noite eu quis te beijar, te abraçar, rir com você.

Por fim, no dia em que o Lucca aprendeu a andar de bicicleta eu lembrei de uma cena linda: você, segurando o banco da minha bicicleta, lá na rua Nazaré da Mata, e dizendo "vai, pedala, força, você consegue". Não sei quanto tempo faz isso, mas eu devia ter a mesma idade do Lucca.

Aliás, você é dono de algumas das minhas principais memórias: meu primeiro sutiã (que era azul), você comprando absorventes para mim, você rindo das minhas piadas (com esse seu jeito sério), me protegendo das agressões da vida. Lembro das músicas de carnaval em noites quentes, no quintal da casa da rua Catapará. Só histórias boas...

Hoje, 25 de novembro você está fazendo 60 anos. E de tudo o que você já fez nessa vida, talvez o mais importante foi ter passado a índole e o caráter que eu tenho. Assim como essa obstinação em realizar sonhos. Você me ensinou que mais do que sermos iguais (fisicamente e no humor) somos seres únicos e erramos.

Por isso, apesar de ser seu aniversário, quem ganhou um presente fui eu, afinal, acabei de expulsar boa parte da mágoa que havia em mim.O resto sairá com o tempo, assim como minha saudade de você.

Feliz Aniversário, Pai.

Eu ainda te amo.

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" Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. (...) Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Um charme só


Preciso dizer mais alguma coisa?

O sonho


Ao abrir os olhos recordou-se do sonho.

Ainda estava na cama, sozinha, o despertador insistindo em acabar com aquela sensação tão boa.

Apertou a tecla "soneca" e tentou dormir mais 10 minutos pra ver se ainda conseguia voltar ao sonho.
Em vão. Não dormiu e nem sonhou de novo.
E como levantou atrasada, tratou de acelerar a rotina da casa e saiu rapidamente.
O dia passou lento, quase arrastado e aquela sensação, aquelas lembranças alí, perturbando seus pensamentos.
No fim do dia voltou pra casa, fez tudo com rapidez e foi deitar bem cedo.
Nada. Nem sonho, nem sono, nem nada.
Vazio.
Silêncio.
E só a lembrança de uma voz, que já ouvira diversas vezes, em prosa e em música, e de um beijo que nunca teve a oportunidade de provar.


terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Tipo


Ela estava incomodada com o Sol em seu rosto.

Era umas dessas tardes de primavera, muito quentes, de céu muito azul. O dia estava especialmente bonito. Mas o sol batia em seus olhos e ela pouco percebia as intenções nos olhos alheios.

Ficaram conversando em plena esquina, na companhia de uma cerveja gelada, em um bar movimentado.

Ela já nem dava mais atenção àquilo que ele dizia. Já havia decorado o discurso, as desculpas, os trejeitos.

Enquanto ele falava, imaginava outra pessoa - qualquer outra pessoa - de preferência, alguém que ela não conhecesse.

Alguém que ela tivesse que desvendar mistérios, segredos, conhecer os desejos. Alguém com quem pudesse compartilhar desejos, insinuar segredos e esconder mistérios. Tudo para ser descoberta.

Pensou como seria ter sexo com essa pessoa: quente, forte, e, ao mesmo tempo romântico.

Imaginou-se casando com essa pessoa, se viu grávida do primeiro filho, projetou imagens de uma família feliz.

Era tudo o que ela queria naquele momento.

Deu uma risada por dentro e se achou ridícula diante de pensamentos tão tolos.

Queria tudo isso e estava lá com um cara que tinha sumido meses antes, deixando-a sozinha e sem nenhuma explicação.

Realmente não fazia sentido.

Até que uma frase a tirou de seus devaneios.

- Minha Linda, quer casar comigo? Mas, tipo, casar sério, ter família, filhos e um cachorro no quintal.

E ele prosseguiu:

- Esse tempo em que ficamos longe deu pra sacar justamente isso. Tipo, preciso de você, você é completa, especial.

E ela, em estado de choque, continuava muda.

- Tipo, só você consegue me esperar. Olha só. Ficou sozinha esse tempo todo.

Os olhos dela arregalaram de tanto espanto.

- Tipo, é isso que eu preciso: fidelidade.

O sol, que antes batia em seus olhos, agora estava mais baixo e ela pode ver os olhos alheios. Ele estava sendo tão sincero com ela, que só restou uma alternativa: dar uma resposta ali mesmo e imediata. E assim o fez, mas antes engoliu a cerveja de seu copo e sorriu.

- E aí? Tipo, você aceita, né?

- Lógico, respondeu ela com um largo sorriso. E emendou já pegando a bolsa:

- Tanto aceito que já vou indo ver meu vestido de noiva, agora mesmo, nesse momento!

- Mas e eu? Espera...

- E você? Olha, meu querido, você espera aí. Quem sabe um dia eu volto...

E saiu enterrando pra sempre aquele "tipo".

domingo, 16 de novembro de 2008

Não tem preço


Depois de contar aqui a aventura de ver meu filho aprender andar de bicicleta, tomei uma resolução: comprar uma pra ele.

Pois não é que na última quarta-feira eu entrei num hipermercado e havia uma bicicleta bem bonita em promoção?

Fiz minha contas e, mais empolgada do que uma criança de 8 anos de idade, comprei a bicicleta e fui pra casa com o coração aos pulos.

O resultado?

Ah... o resultado não poderia ter sido melhor, afinal, um sorriso dele não tem preço!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Pra você, que já me deu tanto


Você, que está na minha vida há tanto tempo, talvez nem perceba hoje em dia a sua importância no desenrolar dos meus caminhos.

Você, que me ouve há tempos, talvez nunca tenha escutado aquilo que lhe era mais caro, mais necessário.

Você, que há tanto me conhece, talvez não saiba o quanto lhe sou grata por tantas coisas. Por tantos dias, por tantas tardes, por tantas noites. Pelo silêncio, pelas palavras, pelo olhar.

Você, que corre com sua vida paralela a minha, talvez não entenda a importância da amizade para mim. E com isso, não enxergue que você é minha amizade mais preciosa.

O tempo foi passando e com ele algumas gentilezas e carinhos ficaram para atrás. Presos na memória como uma colcha de retalhos colorida.

Deixei de te ouvir não porque tivesse deixado de te querer bem, mas porque estava implícito o meu sentimento. Pelo menos para mim.

Não pense você que não lhe sou grata ou que não reconheço o que de bom já deu pra mim.

Mas também não imagine que eu tenha apagado algumas coisas que me machucaram. Porém, até estas serviram para que eu crescesse.

Por isso, para você, que já me deu tanto, dou o que tenho de melhor em minha vida: minha lealdade.

E antes que não dê mais tempo, meu muito obrigada por tudo. De coração.


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Parafraseando Drummond:


E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua alma de ouro,

seu terno olhar,

sua carência,

sua inocência,

sua vida – e agora?

Só me resta o muito obrigada!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ju 3.0

um brinde!!
minha melhor amiga fez 30 anos!!
saúde!! amor!! realizações!!
te amo, Ju!!

niver da Ju - 30 anos!!


amigos queridos!!


friends forever!!
Ju e Di, amo vcs!!




A importância do NÃO


Há dias o Lucca vem pedindo para que eu assine um programa de créditos em um site da Disney, o Club Penguim, para que ele possa acessar todo o conteúdo do Portal.

Até uma semana atrás o valor era em dólares e agora passou a ter a opção para o "Brazil" em reais. O valor? R$ 84,00 por ano no cartão de crédito internacional.

Pensando bem é pouco, se formos pensar na diversão do meu pequeno (que me demanda muito mais por ano!!).

No entanto eu disse NÃO. E ele ficou furioso, é claro.

Tentou me convencer de todas as formas, com todos os argumentos (e olha que ele é bom nisso!!), mas ponderei que nesse momento não dá. No final ele chorou e disse que ia ser o único da turma a não ter acesso em todo o portal.

O coração de mãe apertou, afinal, que mãe que gosta de ver seu filho chorar?! Mas me mantive firme na decisão. Não é não e ponto final (com um colinho e um dengo também).

Pouco depois ele já estava brincando com outras coisas e me pedindo outras coisas também.

Criança é assim mesmo: pede, pede, pede até não poder mais. Pede até conseguir o que quer. Pede até ouvir um não.

Gente grande também é assim, porém, sem o brilho da infância: pedimos inconscientemente (?) o tempo todo. Aliás, quem aqui não levou um NÃO da vida, por favor, deixe um cometário contando o fato!!

Tem gente que pede coisas materiais. Tem gente que pede atenção, sentimento, entrega... tanta coisa que nem cabe aqui a lista. Nos dois casos muitas vezes o NÃO é inevitável.

Por exemplo: conheço uma pessoa que, certa vez, comprou um anel igual ao meu. Acontece que o dela estragou sei lá porque, e agora, toda vez que ela me vê com o meu anel, ela tenta tirar da minha mão e pede pra ela!! E toda vez eu digo educadamente que não vou dar. Decidi que nunca mais usaria a bijouteria na presença dessa pessoa.

Já, no segundo caso, posso dizer que me encaxei muitas vezes. E certamente ainda vou me encaixar muitas mais.

Existem os NÃOS corriqueiros, daqueles que a gente simplesmente fala e não causa nenhum infortúnio:

"O senhor aceita mais vinho?", pergunta o garçon ao cliente.

"Não, obrigado", responde o cliente.

Um outro tipo são os NÃOS pensados, frutos de uma decisão diante de uma situação mais séria:

"Fulano Augusto, você ainda me ama?"

"Não, Ciclana Renata. Não te amo mais!"

Porém, existem certos NÃOS que machucam, magoam. São os NÃOS velados, ditos em silêncio, proferidos com olhares gelados. Não chegam a ser um NÃO, mas uma negativa a todas as expectativas. E eu, depois de vivenciar isso por tantos anos, sofrendo diante de uma pessoa que é uma Esfinge encarnada, resolvi que NÃO iria mais tentar decifrá-la e, assim, NÃO me desgastaria mais. Se vai funcionar? Não sei. Só o tempo dirá.

Por fim, tem o NÃO-COM-SORRISO que, dito tão com jeitinho, deixa até o freguês feliz:

"Fulanto Carlos, vamos sair esse fim de semana?"

"Poxa, Ciclana Jéssica, eu adoraria. Mas tenho que cuidar da minha avó, e se der eu te ligo..."

E daí a gente saí com um NÃO no meio da cara, mas cheia de compaixão e esperança.

Deixando as brincadeiras e exemplos de lado, fica aqui a lição da importância do NÃO. Em todos os casos estabeleceram-se limites, esclareceram-se situações e desenharam-se escolhas. Crescemos ou empacamos diante de um NÃO. Por mais que NÃO tenha sido fácil, por mais que a gente NÃO desista.

E por falar nisso, tenho certeza de que o Lucca não desistiu. Só vai esperar o momento certo para me abordar de novo.


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Tempo Rei


Ouvi isso pela manhã, no momento em que saia da avenida Nova Cantareira e entrava na rua Aureliano Leal. Antes da música tocar, eu havia feito uma pequena prece agradecendo meu destino e as oportunidades que ainda virão.

Bem, pra quem mora em SP, esse lugar fica na Zona Norte. E quem vive na Zona Norte, sabe o que eu estou falando. Essa rua é repleta de árvores floridas e tem uma vista linda para a Serra da Cantareira.

Agora imaginem: estou entregando meus passos ao "Tempo Rei", que rege tudo e todos, estou celebrando meu destino ainda por vir, cheio de novas oportunidades, e essa música toca. E enche meu coração e minha alma.
E pensar que meu coração anda parecendo aquele Pavilhão da Bienal: vazio, porém, cheio de significados e valor.
Melhor assim. Porque quando for ocupado, com numa próxima mostra (de carinho, afetuosidade, amor, lealdade), se tornará um espaço fixo de uma exposição permante!
"Ensinai, ó Pai, o que eu ainda não sei".


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Tempo Rei

Gilberto Gil


Não me iludo, tudo permanecerá do jeito

Que tem sido, transcorrendo, transformando

Tempo e espaço navegando todos os sentidos

Pães de Açúcar, Corcovados

Fustigados pela chuva e pelo eterno vento

Água mole, pedra dura

Tanto bate que não restará nem pensamento

Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei, transformai as velhas formas do viver

Ensinai, ó Pai, o que eu ainda não sei, mãe senhora do Perpétuo socorrei

Pensamento, mesmo fundamento singular

Do ser humano, de um momento para o outro

Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos

Mães zelosas, pais corujas

Vejam como as águas de repente ficam sujas

Não se iludam, não me iludo

Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Essa é a hora


Tristeza passou

foi embora.

Passarinho cantou

tá na hora!

O Sol raiou cedinho,

vamos embora!

A vida tem pressa:

não demora.

Expulsei a tristeza

do meu peito pra fora,

busquei minha essência

num raio de Sol,

num beijo da vida,

num amanhã promissor

pra voltar a ser feliz,

pra voltar a sorrir.

Essa é a hora!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Tristeza

Há um enorme vazio
que insiste em me preencher
que ocupa cada espaço
desde o mínimo ao máximo.

Há uma saudade
que insiste em mostrar
que quanto mais longe ficas de mim
mais te quero amar.

Há uma tristeza sombria
que sufoca a alegria
e da noite pro dia
me faz sofrer.

Há um enorme vazio
sem uma estrela a brilhar
numa noite vazia
num céu sem luar.

Há uma dor sem dó
em um coração tão só
Havia a felicidade - agora distante, fugidia
afastada pela saudade que inebria.

Há uma enorme insistência
de uma lembrança imensa
que ainda vive
ocupando todos os espaços dentro de mim.


OBS: poesia escrita em 25.01.1990

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Para Uma Menina Com Uma Flor


Porque talvez eu seja uma menina com uma flor (desabrochando em meu peito), eu amo tanto esse texto do Vinícius.


Porque talvez eu seja uma menina com uma flor (no caso duas, tatuadas no meu ombro direito), eu queira oferecer ao mundo meu melhor sorriso.


Porque talvez eu seja uma menina com uma flor (várias, na verdade) em minha alma, eu esteja sentindo tanto a falta de alguém importante.


Porque talvez eu seja uma menina com uma flor (vermelha, de paixão), eu sonhe com alguém recitando "Minha Namorada" para mim.


Porque talvez eu seja uma menina com uma flor (prestes a ser entregue a você), eu torça tanto para que seu jardim floresça rapido e eu possa, finalmente, criar raízes em seu terreno.


E porque talvez eu seja uma menina com uma flor, eu desejo tanto coisas que ainda nem vivi, mas que provavelmente saiba de cor (aquilo que minha intuição aponta) a alegria dos caminhos que virão.


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Para Uma Menina Com Uma Flor
Vinicius de Moraes


Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.


E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.


E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.


E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.


E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.


E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.


E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.


E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.


quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Eu e o Lucca!!

Pra quem tinha curiosidade de conhecer o Lucca, aqui estão algumas fotos que eu adoro!!




























terça-feira, 28 de outubro de 2008

Não ouço, não vejo, não falo


Quem lembra daquela mítica figura dos três macaquinhos sentados: um tampando os ouvidos, o outro os olhos e o último, a boca? Eles fazem parte da tradição japonesa e ornamentam a entrada de um templo sagrado do século XVII, na cidade de Nikko. Eles são Mizaru, é o que cobre os olhos, Kikazaro, o que tapa os ouvidos e Iwazaru, o que tampa a boca. Além disso, representam o provérbio: não veja o mal, não ouça o mal e não fale o mal.

Porém, em dias atuais, também pode ser traduzida como "não vejo, não ouço e não falo" - na primeira pessoa mesmo - podendo ser aplicada para tudo, principalmente nos relacionamentos. Afetivos, é claro.

O fato é que tenho percebido um certo movimento "autista" por parte de algumas pessoas e até mesmo de casais. Essa turma passou a viver num universo paralelo, num Second Life, sei lá, se recusando a encarar a realidade. É a tal cegueira das circunstâncias, que já mencionei aqui outras tantas vezes. É a mesma coisa.

O que me incomoda nisso tudo é que responsabilidades estão sendo deixadas de lado: ninguém ouve ninguém, não há diálogo e, por fim, ninguém mais se enxerga. Depois reclamam de seus parceiros, reclamam de não ter ninguém pra dividir a vida, a chatice dos dias corridos ou o colorido de um alvorecer.

Na cabeça dessas pessoas o que importa é o agora, o "meu": meu trabalho, minha vontade, minhas necessidades, minha vida. Meu mundo. Aliás, o mantra é "eu e meu mundo". Egoísmo puro. Bobagem.

O duro é que amanhã ou depois essas pessoas talvez percebam o tempo que perderam girando em torno de seu próprio umbigo. Vai faltar história, memória ou qualquer coisa de valor pra contar, ou para ter pra si próprio. Não existirão lembranças de porres com amigos ou conversas lamuriosas por causa de uma moça, nem um papo que tenha marcado, que tenha feito mudar o caminho ou rever conceitos.

Ou talvez nunca mudem e vivam achando que seu mundinho é perfeito (ou impenetrável, vai saber) e que os outros gastam tempo demais com os outros. Aliás, essa é a chave! Falta disposição para ter preocupações alheias.

Por causa da máxima "cada um com seus problemas" estamos ficando distantes uns dos outros. Aos poucos, as pessoas estão perdendo o timming do diálogo, o jeito de ouvir e a graça do olhar.

Uma pena... Porque eu, dentro do meu mundo (que é vasto e tem espaço pra todos), continuo com bons e velhos hábitos:


  • de dar bom dia, desejando que seja realmente bom.

  • de ouvir quando alguém fala comigo e dar atenção a isso.

  • de ver o mundo com olhos alegres e o coração carregado de esperança.

Eu ouço, eu vejo e eu falo!!


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Beijo a todos que têm visitado meu espaço e obrigada pelos comentários e elogios!!





segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sobre deveres, direitos e vitórias


Não votei ontem.

Abri mão do meu dever cívico e de cidadã paulistana para um motivo maior.

Fui para o litoral e descansei. Tinha esse direito, afinal.

Aproveitei para dormir, para descansar, para ficar com meu filho. Tirei a cabeça da órbita escritório-casa-escritório.

Cozinhei, ouvi o silêncio, escutei o bem-te-vi, o sabiá e muito rock´n´roll. Tinha essa obrigação.

Joguei damas com meu filho. Ganhei duas vezes e perdi outras duas para ganhar o sorriso mais lindo do mundo. Dever de mãe, de amiga. Obrigação de quem ama.

No sábado eu e o Lucca tomamos chuva, compramos figurinhas e comemos tapioca. Juntos. Como dois grandes amigos.

À noite comemos pizza, assistimos TV e adormecemos abraçados - exatamente como um grande amor faria - direitos de apaixonados.

No domingo amanhecemos com um sabiá cantando e um Sol que veio de presente para coroar nosso passeio.

Decidimos não ir embora para votar. Direito nosso querer prolongar a estada para ficar mais tempo juntos.

Fomos à praia, tomamos sorvete, andamos pela beira do mar - exatamente como cúmplices e companheiros fariam.

Daí veio um pedido - ele queria que eu alugasse uma bicicleta para ele.

Na hora titubiei porque, como ele não tem bicicleta, talvez não soubesse andar.

Nessa hora o dever de mãe bateu mais forte ainda. Meu filho precisava alí de um apoio. E eu não estou me referindo às rodinhas laterais da bicicleta. Era meu consentimento, minha aprovação.

E lá fomos nós.

Uma hora de locação custou R$5,00. Porém, a recompensa de ver o Lucca se divertindo e pedalando na areia foi imensa. Exatos 60 minutos de alegria, liberdade, independência e superação.

Ele venceu seu próprio desafio.

E eu ganhei meu domingo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Delícia!


Ela finalmente encontrara alguém.


Ok, não era exatamente o que ela sonhava, mas era alguém que conseguiu estremecer suas estruturas.


Ele era chef de cozinha, dono de um pequeno bistrô, e ela, uma artista plástica cheia de sensibilidade e que, pela primeira vez, estava experimentando o gosto do negócio próprio.
Uma amiga havia indicado o restaurante a ela e sugerido um prato específico. E ela foi, despretensiosamente, provar o prato naquele mesmo dia.


Coisa simples, mas muito bem feita, pensou enquanto degustava a iguaria. O ambiente também era simples, porém, sem ser simplório. A rusticidade chegava a ser chique e, ao mesmo tempo, conferia um toque aconchegante àquele espaço. "Uma delícia", assim definia para os amigos.


Gostou dali e passou a freqüentar sempre que sentia necessidade de ser acolhida. A comida, o serviço e o ambiente bastavam. Acontece que a curiosidade foi chegando e ela queria saber quem era o dono daquilo tudo porque, de certa forma, já estava se apaixonando pelo lugar.


Até que um dia eles se conheceram, conversaram rapidamente e ela indicou seu endereço eletrônico para que ele conhecesse seu trabalho. Ele gostou do que viu.


A partir daquele dia passaram a se corresponder por email – ela elogiando os pratos e suas criações e ele comentando como era realmente bom o trabalho dela.


Acontece que começou a sentir uma coisa estranha, uma confusão qualquer, mas, acima de tudo, uma vontade louca de estar com ele todos os dias. Via nele uma espécie de personagem fatal, desses que qualquer mulher cairia na hora. E ela caiu.


Ela não sabia quase nada dele: supunha que não tivesse compromisso com ninguém, afinal ele nunca comentara, sabia ser um amante de artes, música, bons vinhos, além, é claro, de ser um excelente chef de cozinha.


Mas o pior de tudo é que, por mais que ela se esforçasse para tentar uma aproximação maior, nunca sentia firmeza naquele terreno. Não sabia como pisar, como chegar ou encantar o moço. E outra: ele sequer fazia o tipo dela!! Mas como nas coisas do coração ninguém manda, nem explica, ela continuou na espera de ser notada. E sonhava acordada com isso.


Ele, por sua vez, apenas continuava elogiando seus trabalhos e isso passou a ser sinônimo de ansiedade para ela. A cada novidade que colocava na web, vivia uma espera alucinada por um email, um retorno, uma gentileza, uma delicadeza. E isso, quando vinha, causava nela uma onda de mil sentimentos – um mix de tesão, recompensa, reconhecimento, desejo. Cada elogio era quase um orgasmo, guardadas as devidas proporções, é claro.


É... ela precisava ser desejada. Precisava ser tomada, ser pega, ser engolida por ele.


Por várias vezes, à noite, antes de dormir, se tocava pensando nele e ia à loucura. Imaginava seus beijos, seus carinhos, a força de suas mãos, o toque em seus cabelos. Pensava em como seria ele descobrindo seu corpo, percorrendo com sua boca todas as suas curvas. Também pensava em como seria bom dar a ele o mesmo e daí a imaginação ia longe. Boas eram as noites em que se tinha um elogio para acompanhar suas fantasias.


E enquanto isso não se tornava realidade, ela seguiu aprimorando seu trabalho, a espera de um dia, quem sabe, seus orgasmos deixarem de ser virtuais e ela poder, de fato, dar o melhor a ele, que merecia tanto.

Algumas curvas

"A linha da vida fica muito mais interessante quando ganha algumas curvas."
(Oscar Niemeyer)









terça-feira, 21 de outubro de 2008

Amélia New Generation


Tenho horror a feministas.


Penso que essa "tribo" já deu o que tinha que dar.


Concordo que o movimento foi muito importante para o posicionamento da mulher em toda a sociedade. Graças a ele, hoje votamos, trabalhamos, temos opinião própria e podemos expressar nossa vontade. Toda essa luta também nos trouxe outros benefícios, afinal, nos tornamos independentes e livres. Porém, me pergunto todos os dias se valeu a pena queimar o sutiã em praça pública.


O resultado de toda essa revolução culminou num caminho de difícil retorno: as mulheres livres e independentes estão ficando sozinhas. E amargas.


É... com tudo isso aprendemos coisas que antigamente eram exclusivas dos homens e hoje trocamos pneus, resistência de chuveiro, abrimos vidro de palmito, discutimos com o mecânico, paqueramos mesmo... e aí a coisa pega forte. Algumas mulheres trocaram realmente de posição e passaram a "caçar" os homens como se eles fossem o sexo frágil. Daí jogaram uma pá de cal em todo o romantismo. Acabaram com detalhes que fazem toda a diferença e agora ficam chorando a falta de alguém especial.


Desculpem as mais "engajadas", mas tenho uma alma de Amélia New Generation. Ainda assim eu sou uma mulher de verdade! Gosto de cuidar da minha casa, gosto de cuidar de filho, namorado, e gosto muito de me cuidar. Adoro cozinhar, sei passar roupas, arrumar a casa, trabalho fora, encaro dupla jornada. A diferença é que eu tenho vaidade e amor-próprio, ao contrário da personagem da música de Mario Lago e Ataulfo Alves.


Por isso, ao ver mulheres jovens lastimando não encontrar um parceiro bacana, juro que penso em pedir para que ouçam mais suas mães, tias e avós, e apreendam certos conselhos ao invés de se vangloriarem por serem livres e independentes!! Essas mulheres usam as benesses da vida moderna de forma pejorativa e acabam invertendo os papéis. Excedem e pecam, ao mesmo tempo, nas atitudes. Daí se tornam infelizes e culpam os outros pelo preço que pagam por suas escolhas.


Meninas, aprendam que certas coisas foram feitas para serem usadas para sempre. Uma delas é a gentileza e a outra sutileza. Não vivemos mais em tempos de lencinhos jogados no chão, porém convenhamos, nada como um homem que abre a porta do carro e oferece a mão, puxa a cadeira para sentarmos e ainda por cima abre vidros de palmitos e sabe utilizar um saca-rolhas com maestria. E tudo isso graças à sutileza de nossas ações!


OBS: eu não queimei o sutiã!!



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Não sou estatística


Há uns seis anos atrás, conheci um moço dez anos mais velho do que eu. Ficamos enamorados um pelo outro em poucos dias de convivência, afinal, estávamos trabalhando juntos em um projeto. Demorou cerca de um mês para engatarmos um namoro.
A princípio ele era o que toda mulher sonha: atencioso, solteiro, carinhoso, presente. Em resumo, um lord.
Porém, o moço não tinha trabalho fixo e bebia muito e, como conseqüência, tinha terríveis ataques de ciúmes. Mas, passado o porre, ele voltava a ser o mesmo moço bonzinho, capaz de ninar um recém-nascido ou se emocionar com uma música clássica.
E assim o tempo foi passando e ele ficando cada vez mais insano: passou a ligar na minha casa de madrugada para saber se eu estava lá, não podia mais deixar meu celular desligado um minuto porque ele achava que eu estava fazendo alguma coisa errada, me seguia, botou gente de dentro do meu escritório para me vigiar e conseguiu minhas senhas de emails e orkut para monitorar meus relacionamentos. Sem contar que arrumava briga em qualquer lugar, com qualquer pessoa.
Até o dia em que eu não quis mais passar por situações constragedoras, nem ser ameçada. Sumi por um fim de semana e, na segunda-feira, depois de muito insistir, fui encontrá-lo para dizer que não queria mais nada e que cada seguisse seu caminho. O local era o mais inocente possível e, ao mesmo tempo, aparentemente seguro: o estacionamento de um supermercado de bairro, ao lado de um McDonalds e de uma Blockbuster.
O resultado só não foi pior porque consegui fugir. Ao ouvir que eu não queria mais nada com ele, que estava cansada daquela loucura, das bebedeiras, da falta de trabalho dele, o moço passou a me bater. E bateu tanto que tive descolamento do couro cabeludo na parte de trás da cabeça, próximo à nuca.
Com requintes de crueldade, ele segurava meus cabelos e batia minha testa no volante do meu carro. Quando parava, cuspia no meu rosto e me ofendia com os mais diversos palavrões. E eu pedindo que ele parasse com aquilo, que eu voltaria, que eu estava arrependida. Detalhe: ele não bateu no meu rosto uma vez, mas minhas costas e costelas ficaram completamente roxas, doloridas. O galo na testa era enorme. Por um "descuido", bateu minha boca no volante e meu lábio sangrou. Nesse momento consegui fugir do carro e, com o celular nas mãos, saí correndo e liguei para a polícia.
O atendimento foi péssimo. A pessoa do outro lado da linha queria saber a numeração da avenida que eu estava, queria saber se o outro estava alcoolizado, queria saber se eu poderia voltar para o supermercado enquanto uma viatura viria ao meu socorro. E isso poderia demorar uns 10 minutos. Detalhe²: o infeliz estava vindo atrás de mim enquanto eu falava com a polícia. Quando ele me alcançou, jogou me celular do outro lado da avenida e foi embora.
Detalhe ³: as pessoas que estavam no estacionamento e viram tudo isso nada fizeram para me ajudar, talvez, se apoiando na máxima "em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher".
Me certifiquei de que ele não estava mais por perto, peguei o que sobrou do celular e voltei para o carro. Quando saí do estacionamento, vi um posto móvel da polícia perto dali - uns 100 metros - e me dirigi para lá.
Para minha surpresa, após contar o que havia acontecido, ouvi do policial que eu era estatística e que como eu, mais de uma centena de mulheres estavam apanhando naquele momento e, por fim, que quase 100% delas voltariam para o agressor no dia seguinte.
Fui embora sem prestar queixa, arrasada, envergonhada, me sentindo suja e muito triste.
As agressões continuaram por alguns meses, mas o assédio era moral: emails para meus amigos, scraps pornográficos e ofensivos, montagem de fotos com a minha imagem.
Levou algum tempo, mas eu tive coragem e fui denunciá-lo numa delegacia para mulheres. Fui recebida com todo respeito, me deram atenção, ouviram minha história, consideraram minhas provas e daí entraram com um processo de perturbação da tranquilidade e ofensa moral, porque a agressão física tinha acontecido uns meses antes.
Me senti gente, me senti forte, íntegra. Mais ainda quando ele foi formalmente citado e depois processado.
Na verdade, não deu em nada. Doou algumas cestas básicas e algumas horas de serviços à comunidade. E nunca mais me procurou. Ele talvez tenha aprendido a lição, mas não sei se sabe lidar com um grande e sonoro NÃO.
Daquele leão enfurecido, sobrou um gatinho manso. E aquela mulher agredida virou uma leoa e não se transformou em estatística.
Eu sobrevivi.


Eloá, descanse em paz.

domingo, 19 de outubro de 2008

Pra não entender

Veio desde a cozinha até o quarto apagando as luzes, recolhendo roupas jogadas e objetos que estavam fora do lugar. Pensou em pendurar uma placa avisando que "objetos inanimados não se movem sozinhos" para ver se surtiria algum efeito, mas estava tão cansada que teve forças apenas para escovar os dentes e deitar.
Olhou para o lado e ele dormia profundamente.
Com um gesto de aparente carinho passou as mãos nas costas dele esperando alguma reação. Nada. Tentou se encostar de leve, envolvendo o corpo dele com pernas e braços. Nada de novo.
Suspirou e foi para sua posição de sempre, virada para o lado esquerdo. Estava muito cansada, mas não tinha nem um pingo de sono. Teve frio, teve calor, teve vontade de acordá-lo. Mas não fez nada porque um pensamento acabara de invadir sua noite.
Foi tirando vagarosamente seu pijama - primeiro a calça, as meias, tirou sua blusa e assim ficou por um minuto.
Passou delicadamente a mão pelo colo, desceu até a barriga, tocou suas coxas. Se demorou em carinhos, se perdeu em detalhes.
Suspirava baixinho a cada descoberta e, com a memória a postos, ousou toques, sentiu gostos e, por fim, sufocou um gemido.
Passado o êxtase, certificou-se de que ele não havia percebido nada, vestiu-se novamente e o sono chegou logo. Dormiu como um anjo.
No dia seguinte ele acordou com alguém assobiando, cheiro de café e pão fresco na mesa. Viu a sala arrumada e, como não compreendeu a situação, pensou: "quem entende as mulheres?".

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Exemplo

Exemplo (by Rafa Cury):

(...) Pouco importa quem merece o quê. Ofereço carinho. Devolvem-me pedras. Estou errado? Negativo, errado é quem me atira. (...)

Não é preciso dizer mais nada.

O princípio do vazio


Depois de confessar aqui que tudo o que preciso é amor, que vou refazer meu jardim e que vou cuidar mais de mim, fiquei pensando em uma coisa: o que virá quando tudo isso estiver pronto.

Sou o tipo de pessoa que precisa estar constantemente apaixonada para ser feliz. Apaixonada pela vida, pelo trabalho, pelas pessoas, por alguém especial.

Porém, ultimamente, tirando o amor pelo meu filho e pelos meus amigos, tenho me sentido meio vazia.

Parece que houve uma mudança dentro de mim: os móveis já não estão mais no lugar, há muito espaço e algum eco. Aliás, ainda ecoam vozes de coisas que não foram embora, e que já não pertencem mais a esse lugar, mas que insistem em ficar.

Mesmo assim me sinto vazia.

E a princípio isso soou de forma depressiva. Fiquei triste porque coisas caras haviam sido despejadas de dentro de mim, sem a minha autorização. Coisas importantes foram embora e só ficou a saudade e a memória que insistem em habitar esse espaço vazio.

A tristeza ainda está saindo junto com a mudança. Mas isso um dia acaba.

Por outro lado, estar vazia é uma excelente oportunidade de dar sentindo à minha história. A partir do momento em que eu me certificar de que não há mais nada do antigo inquilino, poderei locar novamente esse espaço tão privilegiado que é meu coração. E assim, preencher com novo mobiliário e criar um ambiente aconchegante e acolhedor.



terça-feira, 14 de outubro de 2008

Aforismos sem juízo

por Daniel Piza (do Estadão):

A solidão não purifica. A cartarse não salva. Quem acredita demais num ideal está pronto para não realizá-lo.

Para um amigo


essa vai para um amigo:


"A alegria de fazer o bem é a única felicidade verdadeira."

[Tolstoi]


Obrigada por compartilhar sua história comigo!!

Tenha a certeza de que você ganhou mil sorrisos "musicais" (inclusive o meu!).

Beijos,


Andréa

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Um pouquinho mais feliz


Hoje acordei muito cedo. Ainda não era cinco da manhã (acho que faltava uns dez minutos), estava começando a clarear. O dia nascia rapidamente junto com um Sol imenso e toda a sua energia.

Meu compromisso era levar e acompanhar minha avó, a vó Nora, para uma consulta médica às 7 horas. Consulta de rotina para ver os resultados dos exames. Posso dizer que ela deve estar melhor do eu porque, segundo a médica, ela tem "exames de mocinha" para quem tem 84 anos, se referindo à normalidade dos resultados.

Mas antes, quando o posto de saúde ainda nem havia aberto as portas (às 6h30), fiquei observando o dia, o hoje. E juro, me senti um pouquinho mais feliz. Tinha um sabiá, tinha uns pardais, tinha uma árvore que fazia um pouco de sombra. Tinham os raios do sol por entre os galhos. Tinha vida. E, claro, tinha esperança.

Não sei, mas tive a impressão de que tudo aquilo era pra mim.

E se foi, só posso dizer uma coisa: OBRIGADA! Hoje eu fiquei um pouquinho mais feliz.

domingo, 12 de outubro de 2008

Todo Se Transforma

Nessa fase de tanta mudança, transformação e descoberta, estou criando uma trilha sonora pra musicar minha história.
E pra começar, vamos de Jorge Drexler, com Todo se Transforma.
O refrão diz tudo... "nada é mais simples, não há outra norma: nada se perde tudo se transforma!".

Todo Se Transforma

Tu beso se hizo calor,
luego el calor, movimiento,
luego gota de sudor
que se hizo vapor, luego viento
que en un rincón de La Rioja
movió el aspa de un molino
mientras se pisaba el vino
que bebió tu boca roja.

Tu boca roja en la mía,
la copa que gira en mi mano,
y mientras el vino caía
supe que de algún lejano
rincón de otra galaxia,
el amor que me darías,
transformado, volvería
un día a darte las gracias.

Cada uno da lo que recibe
y luego recibe lo que da,
nada es más simple,
no hay otra norma:
nada se pierde,
todo se transforma.

El vino que pagué yo,
con aquel euro italiano
que había estado en un vagón
antes de estar en mi mano,
y antes de eso en Torino,
y antes de Torino, en Prato,
donde hicieron mi zapato
sobre el que caería el vino.

Zapato que en unas horas
buscaré bajo tu cama
con las luces de la aurora,
junto a tus sandalias planas
que compraste aquella vez
en Salvador de Bahía,
donde a otro diste el amor
que hoy yo te devolvería...

Cada uno da lo que recibe
y luego recibe lo que da,
nada es más simple,
no hay otra norma:
nada se pierde,
todo se transforma.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Meu jardim

Recentemente li um texto lindo, escrito por uma pessoa igualmente linda, sobre metamorfoses da nossa vida. O autor abria o texto com a seguinte frase do Rubem Alves: "Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses."
E, como as borboletas só aparecem em jardins bonitos e felizes, tratei de olhar pro meu terreno e ver o que anda afastando as minhas borboletas.
Acabei encontrando algumas ervas daninhas e nenhuma flor. Estava tudo murcho, ressecado, quase morto.
Que decepção... Logo eu, que sempre fui tão cuidadosa com jardins alheios, dexei o meu ficar nesse estado. Parace um latifundio improdutivo. Nenhum inseto iria procurar guarida ali: nem joaninhas, formigas, abelhas, vespas, maria-fedida e muito menos borboletas.
Passarinhos então... nem pensar!
Por isso, hoje resolvi mudar essa paisagem. Porque o Sol apareceu, porque é primavera e porque percebi que abandonei meus sonhos pra cuidar dos jardins dos outros.
Hoje vou arar meu terreno, afofar minha terra, tirar as ervas daninhas. Vou deixar tudo bonito de novo, para que as borboletas se aproximem e para que os passarinhos voltem a cantar em minha janela. Dessa vez pra sempre!!

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Jardim
(por Rubem Alves)

(...)
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.

O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.

Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.

O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.

Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.

Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!

Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

SAFADA

Não dormi quase nada de ontem pra hoje. Resultado: tô um caco, com umas olheiras "daquelas" boas...
Também não estou conseguindo me concentrar no trabalho.
Para espantar o sono, entre um bocejo e outro, fui fazer a ronda nos meus blogs preferidos e parei no do Fabrício Carpinejar, que lançou recentemente um livro chamado "Canalha". O livro surpreende a começar pelo nome, mas como o próprio autor explica, não se trata de uma ofensa, e sim, de um grau de evolução do homem. "O canalha. Como um elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. (...) Estou falando do canalha que suscita aproximação, abraço, desejo".
Daí, após o lançamento do livro (que eu ainda não comprei!!!), surgiu uma discussão. Qual seria o feminino do canalha??
A resposta está abaixo, num texto delicioso.
E, já que o Fabrício batizou, vou me despedir assim...

Beijos da SAFADA!!









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O EQUIVALENTE FEMININO DE CANALHA



Põe tarja rosa no lugar da preta.
Canalha tem um equivalente. Mais delicioso do que ele.
Se eu fico eriçado com Canalha, nem posso pronunciar direito seu sinônimo feminino. Transborda. É como, imobilizado, ser acariciado pelas pernas de uma mulher e investir inutilmente as mãos nas cordas.
Vou guardar para o final.
Os leitores debateram qual seria a encarnação depilada do canalha.
Surgiram várias provocações.
“Ingrata”? Elimino. Há uma ancestralidade negativa, não tem peso sexual. Atende a situações de desapego e desprezo. Ingrata é quem não dá o merecido.
Convenhamos, o canalha dá mais do que o merecido. Só não permanece. Some sem se despedir. Canalha nunca aparece morto, um dia pode voltar. É o Dom Sebastião do sexo. Os telefonemas vão rareando e, de repente, ressurge como se fosse ontem, disposto como da primeira vez.
O canalha sofre ataques de ternura. Nunca alcançamos o quanto ele vai durar - o que aumenta a intensidade dos encontros.
"Você é uma ingrata" soa como briga de comadres. Ou algo que o cabeleireiro confessa quando você não gosta da franjinha que ele inventou de última hora.
“Ordinária”? Um arcaísmo. Já era velho com Nelson Rodrigues. Não tem modernidade. Significa o cafajeste de saias. Sem diploma, não tem o cacife de um canalha. Foi trabalhar muito cedo.
Forte, contundente, mas clamor despossuído de continuidade. É empregado para qualificar as sessões nas Câmaras Municipais de Vereadores, o que liquida de vez sua prosperidade amorosa.
Ordinária não oferece esperança. Canalha tortura pela fé depois de torturar pelo amor.
"Você é uma ordinária" lembra despedida de novela mexicana dublada. Os lábios do ator fecharam e a ordinária nem terminou de sair da garganta. Conclusiva, trai a mímica. Um beco da linguagem.
Para expulsar uma amante e se internar em seguida numa clínica de desintoxicação.
"Vaca"? Não, é um complemento sexual. Um vibrador das palavras, não tem a regularidade da carne. Um apelo que pode ser usado de modo controlado. No ardor dos travesseiros. Aliás, um gemido abafado no travesseiro é a soberba do som. Um gemido sufocado é o mais alto gemido que o homem pode ouvir de uma mulher. Nossos orgasmos serão sempre surdos depois dele.
Você é uma vaca" não tolera a repetição. Vaca Vaca Vaca é arremate de leilão na tevê. Se a protagonista é peituda, sério risco de sofrer um processo por difamação.
O mesmo com as demais espécies. “Cadela” ou “Égua” dependem de uma oportunidade. São adicionais da investida. Deve deixar a mulher pedir. O apetite rural é conseqüência dos bons antecedentes urbanos da transa.
"Vadia"? Funciona unicamente no quarto. Na rua, será motivo de agressão.
"Ei, vadia, está furando a fila?" Não surte efeito.
O canalha é o coringa do charme, pode ser veiculado nas vias públicas e acessos íntimos.
"Ei, canalha, está furando a fila?" Ainda se manterá a normalidade do trânsito.
Vadia exige intimidade ou tesão descomunal.
Desembarcamos no ponto alto: se o canalha fosse mulher, seria SA-FA-DA. É o café cortado que faz par ao expresso. A pronúncia é igual. Aberta, com as vogais batendo três vezes nos dentes. Safada é o vodu da dicção. Alfineta a boca. Estala, como aldrava numa porta.
Quando o homem fala SAFADA, tem dificuldade para terminar. É derrotado pelo prazer. Prolonga ao máximo, como um guizo de uma cascavel. Depois de verbalizar, sente imediatamente uma saudade sonora.
Safada é expressão para morder, por mais que se queira lambê-la. Pode ser disparada no cantinho de trabalho ou numa roda de samba. É um elogio da malícia feminina, reconhecimento ao incontrolável temperamento. Com "sua" na frente é AVC. Não há como negociar prazos.
Repare: Sua Safada. O pulmão pede passagem. Mais consagração do que ofensa. Picardia na medida certa. Melodia que insinua e não limita o delírio.
Um sujeito somente diz quando reconhece que está sendo derrubado e nunca gostou tanto de ser masoquista. “Safada” é gritado como canalha. Ainda que num sussurro, ultrapassa o limite de 60 decibéis e deflagra a poluição sonora.
É um "não esperava" esperando. O cara restará idiota, com o rosto perplexo de quem pensa "nos conhecemos de algum lugar?" e não estraga o momento com essa pergunta. Traz uma autoridade milenar, um conhecimento secreto que não merecer ser revelado, muito menos questionado.
Safada é libertinagem ingênua, devassidão castiça. Safada é o que o homem encontrou para não entregar que está apaixonado.
Tente.