terça-feira, 25 de novembro de 2008

Sobre erros, perdão e saudade.

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que isso não é uma carta de amor, muito menos um tratado sobre o perdão.

Não estou, por estas linhas, pedindo perdão.E também não sou a dona da razão, por isso, a sinceridade que virá terá tanta intensidade quanto eu achar necessário. Aliás, preferi escrever porque corria o risco de você não me escutar. E escrevendo sou melhor, mais forte.

Há mais de um ano nos declaramos mortos - um para o outro - e fingimos enterrar tudo o que sentíamos.Sobraram acusações, raiva, um sentimento de traição, deslealdade total.

Ficou a mágoa. Presente nesses quase 14 meses de silêncio sob o mesmo teto, ela foi a testemunha de muitas situações. Pelo menos de minha parte, já que de você não posso falar, não sei.

Todas as vezes que eu chegava ou saia e você estava lá, todas as minhas conquistas e as suas também foram em silêncio.

Faltou algo.

Mas você foi enterrado naquele dia tão triste - ficou presa em minhas memórias sua expressão de raiva (diante de seu próprio erro e da minha indignação).

Volto a falar de mim: aquilo foi mais forte do que um soco na boca do estômago. Foi a negação de tudo o você havia me ensinado a vida toda. Tudo o que eu sabia de vida tinha sido por suas mãos. Tudo o que eu queria ser - até aquele momento - era exatamente como você.

Dalí por diante eu não sabia mais nada.Tive que decidir sozinha alguns rumos, tive que dividir sozinha algumas conquistas.Você estava enterrado vivo - andando, falando, almoçando na mesma mesa aos domingos e durantes os jantares.

Passei a evitar esses encontros, assim como passei a evitar seu olhar.

A mágoa ainda me corta.Foi como descobrir que o meu super-herói era, na verdade, um personagem falso. Dalí em diante ninguém mais me salvaria e meu mundo estaria em perigo constante.

Mas, sabe, não foi bem assim. Tenho "pernas" e vi que posso andar sozinha e chegar aos meus objetivos sozinha, sem ninguém segurando minhas mãos.

Cresci muito nesses 14 meses. Aprendi muito. Amadureci também e tomei decisões importantes. Dei passos largos e aos poucos estou alcançando alguns objetivos.

A adversidade e a dificuldade foram importantes degraus.

Embora você ainda me veja como uma adolescente, já sou uma mulher: estou com 34 anos e meu filho vai fazer 9 anos daqui a três meses.

Diante disso, penso que você sentiu a mesma coisa há nove anos atrás. Seu mundo deve ter ruído e a mágoa deve ter tomado conta de seu coração.

Mas ao contrário do que aconteceu comigo, a sua mágoa se transformou em presente.Duvido que seu neto seja uma coisa ruim em sua vida. Ele, na minha opinião, veio para por cada um de nós diante de nossos verdadeiros caminhos - independente das nossas escolhas.

E até nisso somos iguais: continuamos insistindo em caminhos errados até quebrarmos a cara.

Eu assumi meus erros e aprendi. Na dor, é claro. Não posso falar por você.

E agora penso que já está mais do que na hora de te "ressuscitar", te trazer de volta aos meus dias. Principalmente agora, que vamos ficar fisicamente separados, cada um em sua residência, seguindo sua vida, seu destino.

Por isso, eu queria te dizer uma coisa: eu estou com saudades.

Você fez falta no meu futebol - não tinha com chorar a queda o nosso time pra série B e também não tinha ninguém para comemorar a volta.

Não te desejei feliz ano novo, não rimos das nossas piadas, você não esteve comigo quando comprei meu carro, nem ponderou sobre minha decisão de morar sozinha. Você também não estava perto quando levei a vovó América para o hospital e precisei segurá-la sozinha para passar aquela sonda horrorosa. Naquela noite chorei desejei seu colo. Assim como, quando os médicos estavam "batendo cabeça" com relação ao tratamento dela, e seu estado só piorava, vi você chorando e quis te abraçar. Dói perder alguém.

Teve também o dia da entrega das chaves - aquela festa bonita e você, feito criança, indo de um lado para o outro, com os olhos brilahndo diante da sua mais nobre realização. Você, alí, era o protagonista. E eu te aplaudia por dentro com mil mãos.

Naquela noite eu quis te beijar, te abraçar, rir com você.

Por fim, no dia em que o Lucca aprendeu a andar de bicicleta eu lembrei de uma cena linda: você, segurando o banco da minha bicicleta, lá na rua Nazaré da Mata, e dizendo "vai, pedala, força, você consegue". Não sei quanto tempo faz isso, mas eu devia ter a mesma idade do Lucca.

Aliás, você é dono de algumas das minhas principais memórias: meu primeiro sutiã (que era azul), você comprando absorventes para mim, você rindo das minhas piadas (com esse seu jeito sério), me protegendo das agressões da vida. Lembro das músicas de carnaval em noites quentes, no quintal da casa da rua Catapará. Só histórias boas...

Hoje, 25 de novembro você está fazendo 60 anos. E de tudo o que você já fez nessa vida, talvez o mais importante foi ter passado a índole e o caráter que eu tenho. Assim como essa obstinação em realizar sonhos. Você me ensinou que mais do que sermos iguais (fisicamente e no humor) somos seres únicos e erramos.

Por isso, apesar de ser seu aniversário, quem ganhou um presente fui eu, afinal, acabei de expulsar boa parte da mágoa que havia em mim.O resto sairá com o tempo, assim como minha saudade de você.

Feliz Aniversário, Pai.

Eu ainda te amo.

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" Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. (...) Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu."
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Um comentário:

Débora disse...

Noooooooossa...
Fiquei muito emocionada com o texto... o mais emocionante é que parece que você escreveu com a alma, tirando lá do fundo tudo o que sente.
Talvez tenha me tocado tanto porque tenho problemas de relacionamento com meu pai, e não é nada fácil para mim falar para ele o que eu sinto.
Parabéns Andréa!!! Você conseguiu expressar o que sente.

Obs.: sou a Débora, amiga da Lilian, que você conheceu no sábado no restaurante dela.