quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A espera do adeus.


Hoje ela ia fazer um jantar para mim.

O cardápio era o meu preferido: arroz, feijão, bife à milanesa, salada de alface, batatinha frita. Aliás, esse foi o mesmo menu do meu aniversário, quando ela fez um almoço surpresa pra mim e chamou pessoas queridas para compartilhar o momento.

Hoje eu ia sair do escritório no horário, ia voar pra casa dela, ganhar carinhos, cafunés, afagos, íamos conversar, falar no meu trabalho novo, falar do Lucca - que é a paixão dela - e eu ia contar as peripécias do Lilo, que comeu duas blusas minhas.

Na hora de ir embora eu ia pegar nas mãos dela e lhe dizer o quanto eu a amava. Como sempre.

O meu jantar foi cancelado na última quarta-feira, quando a minha avó foi internada após um infarto. Daí que se seguiram mais dois, arritmias, falência de um pulmão, de um rim, sedação, e ela não voltou mais, entrou em coma.

Acredito que em poucas horas ela vá embora em definitivo. Porque aquele corpo que está lá, cheio de fios, tubos, catéteres não é mais a Vó Nora. Não a minha Vó Nora!

A minha avó se levantaria dali, resmungando, é claro, mas iria passar um café bem forte pro Vô Mello e pra mim, e ia fazer bolinhos de chuva e depois sentaria comigo e riria das minhas bobagens. A minha Vó Nora ia me abraçar bem apertado e eu ia sentir o cheirinho dela e alí, no seu colo, eu estaria bem protegida. E o Vô Mello sorrira confortado por saber que não existe amor maior do que o nosso.

Ou melhor, existe sim.

O amor dos dois é o maior amor do mundo: são 65 anos de casados, completados em julho passado, mais os tais dois anos de namoro. Nunca vi os dois discutirem, nunca ouvi um palavrão, uma picuinha. Na matemática da vida em que a soma de dois resulta em um, eles se fundiram.

Por isso, a minha preocupação agora é ele. Porque uma parte dele está morrendo e, no alto de seus 89 anos, ele não vai ter mais quem passe seu café forte logo após o almoço. A conversa da noite, diante da tevê, será um monólogo. Pra quem ele vai fingir que é surdo, só para que ela falasse bem perto de seu ouvido??

Os doces, os presentes, o carinho, vai pra quem agora?? Não valerá mais a pena comprar o Estadão de domingo porque o Suplemento Feminino vai ficar jogado num canto.

Eu estou perdendo a minha avó. Ele está perdendo a razão de viver.

Não posso ser injusta e sei que a missão dela está chegando ao fim. Ela viveu por quase 86 anos (seu aniversário seria em 18/2), uma vida boa, sem privações severas, ou problemas insolúveis. Passeou, viajou, conheceu lugares legais. Teve quatro filhos, sendo que a mais velha morreu no parto. Dos outros três filhos, ganhou seis netos e quatro bisnetos. Sou a neta mais velha e mãe do bisneto mais velho. Ela amava a todos, mas eu, sem modéstia nenhuma mesmo, era sua paixão. Quando o Lucca nasceu, perdi o meu posto de preferida.

Não tenho medo, nem vergonha de dizer que a amo mais do que a minha mãe.

Assim como também não tenho a menor vergonha de estar, em pleno escritório, chorando ao escrever esse post.

"Vó Nora, minha amada, minha querida, minha mãe, vá com Deus. Siga para junto do Pai, Lá seus irmãos estarão te esperando. Não olhe pra nós, porque somos egoístas e estamos chorando sua falta. Olhe pra frente e veja que o Céu está em festa. Mais um anjo está voltando pra casa".

Da sua filhinha,

Andréa

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A.I. 5 ou recado.


Fui censurada.

Achei que essas coisas aconteciam somente com aqueles que mexiam com figurões da política, ou com "coronéis" de qualquer segmento.

Mas aconteceu comigo.

No fim do ano passado postei um texto falando sobre o orgulho que sinto do meu pai e contando sobre as dificuldades que passamos ao longo de quase três décadas. Dificuldades que ele superou uma a uma com maestria.

Daí que escrevi um parágrafo mencionando - vejam bem, mencionando - algumas de suas conquistas materiais, sem dar grandes detalhes, e fui censurada. E eu só queria amarrar meu argumento com um gran finale.

A desculpa para a censura esbarra na questão da privacidade, que esbarra na questão da violência e que esbarra na questão da ordem e dos bons costumes.

Ouvi alguns desaforos e daí tirei hoje o tal parágrafo do texto, conforme a "solicitação" do meu censor. E a minha intenção era expor, aqui, e de forma muito positiva, aquele que é um dos meus maiores exemplos de vida.

Talvez seja difícil para outras pessoas saber que eu amo meu pai e que ele, do jeito torto dele, também me ama. E que não cabe mais ninguém - de fora - no meio dessa relação.

Fui dormir repensando certos conceitos, assim como algumas relações humanas, que são cheias de sombras de pessoas que sobrevivem da inveja e do ciúme.

Ao acordar hoje ainda estava com raiva do real mandatário da ordem de censura. Com o passar das horas pude perceber que sou melhor do que essa pessoa, sem nenhuma modéstia mesmo.

Eu sou assim, desse jeito que vocês estão acostumados a ler/ver: se estiver triste não vou publicar uma piada, se estiver feliz, meu texto não será sombrio. Se eu precisar de socorro, vou gritar e estender a mão, se tiver alguma coisa boa pra passar, tenham a certeza de que estará aqui também.

O meu censor queria que eu deletasse o blog. Pensei em até enviar a ele os emails que recebo de gente de todo o tipo, me incentivando, me elogiando ou até mesmo me criticando com o firme propósito de fazer com que eu cresça ou só contando que meus textos tocam fundo no coração. E olha que eu sou só mais uma na blogesfera.

Desisti da idéia.

Amo escrever, amo saber que tenho leitores fiéis, e que viraram amigos que são escudeiros de verdade. Amo a minha liberdade de expressão.

Já me fizeram ficar em silêncio muitas vezes, mesmo quando minha alma berrava dentro de mim. Mas dessa vez não vão me calar.

Porque não cabe o que tem de bom dentro de mim.
Principalmente no quesito caráter e honestidade, já que não me escondo atrás de outras pessoas para emitir minha opinião.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Feliz 2010, desventuras em série e um pedacinho da história da minha vida.


Tirei férias.

Na verdade, me dei férias. Achei que precisava de um tempinho do tipo eu comigo mesma (ops Rafa, desculpe, mas precisei emprestar a expressão) e daí juntei minhas malas, as do meu filho, mais a tranqueirada do Lilo e fomos rumo ao litoral paulista.

Nada de glamuroso - fui para a Praia Grande mesmo - porém, com a promessa de descansar mesmo, desligar de tudo e de todos. Aliás, peço desculpas aos que me mandaram emails, mensagens e tentaram me ligar e não conseguiram. Por razões que só a tecnologia 3G da Claro conhece, nem meu celular, nem minha internet funcionavam dentro do meu apartamento.

Mas pensando bem, melhor assim, já que pude estar mais tempo sozinha, sem interferências externas.

Tirando as desventuras em série, que eu mecionei no título e que daqui a pouco detalharei, posso dizer que minha virada não teve nada de especial: não comi lentilhas, embora a minha amiga Jéssica tivesse levado para a ceia (e todo mundo disse que estava maravilhosa), não guardei uma folha de louro na carteira pra ter mais dinheiro, não comi as uvas, não pulei num pé só, não joguei flores no mar. Também não fiz promessas porque não quero ficar devendo nada pra mim mesma. O verbo que vou conjugar em 2010 é REALIZAR!!

Acontece que mesmo abrindo mão de todos os rituais e simpatias, não deixei de lado o hábito de agradecer tudo o que aconteceu ao longo do ano passado. E como no texto anterior fiz uma brincadeira listando tudo aquilo que perdi, resolvi agradecer assim mesmo.

Porque foi com os tombos e tropeços que aprendi, que cresci, que amadureci. Claro que os conselhos dos amigos queridos, as conversas, os desabafos também valeram. Mas de toda a lição que 2009 deixou, talvez a mais importante tenha sido a de nunca mais esquecer de olhar para mim antes de qualquer coisa. Ter a certeza daquilo que eu quero ou das coisas que eu realmente não faço questão é muito bom.

E hoje, logo nos primeiros dias do novo ano, eu já tenho comigo uma listinha do que eu não quero. E entre elas está o fato de que eu não quero mais do mesmo. Ou seja, ou será diferente, importante, intenso, ou simplesmente não será. Cansei do tudo bem, do OK, do deixa pra lá.

Como disse no texto anterior, em que sabia que talvez perdesse mais alguma coisa nos últimos dias do ano, de fato perdi. E dessa vez foi o namorado.

Na hora chorei, fiquei triste. Ainda acho que estou triste. Mas vai passar, eu sei. Porque dessa vez eu quero mesmo que passe. Porque simplesmente não dava mais pra continuar cultivando erva daninha num terreno tão fértil e tão bom como é meu coração!

Não me arrependo nem um minuto por ter amado tanto alguém que por muitas vezes mereceu meu amor. Mas como sabemos, tudo tem um ciclo e eu precisei ir até o fim pra realizar o fim, pra entender e aceitar. E a dor e a tristeza viraram lembranças de um passado bacana, em que eu tive um cara muito legal ao meu lado. Pena que acabou - tanto a época, quanto o brilho dessa pessoa.

Com tudo isso - aceitação, reconhecimento, perdão - percebi que explodiu dentro de mim, de novo, aquele "mulherão" cheio de certezas e seguranças, medos, suspiros, sonhos, e muita força, exatamente como eu era há uns dez anos. E eu fui invadida pela paz.

E é essa paz que eu quero transmitir para todos, para que 2010 seja, assim, um ano memorável, farto de realizações.


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Bem, o título também se refere às desventuras em série. É que quando planejei viajar para a praia, na minha cabeça seria apenas eu, meu filho e o Lilo (minha calopsita). Daí que quando eu já estava praticamente a caminho da estrada, o ex lembrou que havia convidado um casal de amigos nossos para passar a virada conosco, e eles (sem saber de nada, é claro) já estavam fazendo planos para ceia e tudo mais. Conclusão: o ex que não ia para o mesmo lugar que eu, foi, os amigos também foram (e eu adorei ter o Bruno e a Jéssica na minha casa) e ficamos todos juntinhos, no mesmo apartamento - o meu, no caso.

Diante das circunstâncias, o ex resolveu que eu tinha que fazer um tender, já que ele considerou que seria pouca comida para todos nós. A resignada aqui saiu, então, em busca do tender perdido, em plena Praia Grande, num 29 de dezembro. Achei um bem pequenininho, do tipo Bolinha. E foi ele mesmo o escolhido (e ficou uma delícia!!).

Bem, passamos a ceia com outros amigos queridos, o Fábio e a Meire e a quantidade de comida que tinha lá eram absurda!!! Dava para mais umas 10 pessoas comerem tranquilamente e ainda sobrar.

Faltando uns cinco minutos para meia noite e rumamos todos para a praia.

Meia noite em ponto estouramos os champagnes e brindamos e nos abraçamos, e São Pedro já dava alguns sinais de mau humor com uns pinguinhos de chuva (ainda bem que não tinha feito chapinha...). Os fogos foram poucos e minguados. Quase um mico.

Fui pro mar fazer minhas orações a agradecimentos debaixo de chuva. Não pulei ondinhas porque simplesmente o mar resolveu não mandar nem marola pra mim. Achei melhor deixar pra lá.

Quase quatro da manhã acordo me sentindo mal, como se não tivesse feito a digestão. E eu nem tinha jantado direito!!! Resumo: peguei a tal da virose que provoca "problemas" gastrointestinais e passei dois dias no vaso, quase como uma flor!

No meio disso tudo acabou a água no meu prédio e a solução do caso virou um empurra-empurra entre SABESP e o síndico. E eu com piriri e visitas em casa!!! Sem contar que o primeiro dia do ano amanheceu sob um dilúvio!

SOCORRO!!!

Justamente por estar malzinha, o ex se plantou lá em casa, depois de me levar remédios e gatorade. Daí, quando melhorei, quem caiu de cama (ou dominou a privada) foi ele. E lá se foram três dias de sofrimento: ele jogado, ora na cama, ora no sofá, e eu lá, sem aproveitar minhas férias... Teve até um dia que, vendo o circo pegar fogo, saí e fui comprar qualquer besteira no mercadinho perto do prédio. Só pra poder respirar um pouco. Voltei pra casa com uma sacolinha com papel higiênico e cigarros. Pro ex, é claro!

Ah! já ia me esquecendo... ele tem uma cachorrinha, que detesta o Lilo, e também ficou lá em casa. A coitadinha não tinha culpa de nada, era outra vítima alí no meio da situação toda.

E antes que eu me esqueça, preciso dizer que o ex se instalou lá em casa mesmo tendo um apartamento na rua imediatamente anterior a do meu prédio, e ele, claro, fez cara de carranca todos os dias que ficou por lá.

Por fim, o moço me pediu carona para voltarmos a SP ontem e eu pude, enfim, despejar tudo aquilo que eu senti, sinto e ainda vou sentir por ele. Nada como 50 minutos de volante para tornar o discurso mais empolgante...


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O pedacinho da história da minha vida aconteceu de forma inesperada. Fui visitar uma escola que estudei a minha vida toda, com o objetivo de matricular o Lucca lá, e me deparei com lembranças lindas e tão vivas que me emocionei. Como numa volta ao passado, vivi cenas da minha história através de paredes, quadros, espaços, pessoas. E o melhor foi o diretor da esola lembrar de mim na hora e soltar um "claro que me lembro de você, Andréa Mello, afinal você era uma boa aluna, mas também era terrível".

Nem fui ver as outras escolas da lista. Tem coisas que são tradicionais e o ensino lá ainda é o mesmo. Se eu me senti acolhida, imagino que o Lucca também irá se sentir assim.


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Bem, pra concluir só quero que saibam que umas das coisas que jamais abrirei mão é dos meus amigos, sejam eles os companheiros do dia a dia, os que estão longe, ou os virtuais (que são tão importantes quanto os outros).

Eu, sozinha, até resolvo meus pepinos. Mas cercada e abraçada por vocês, meus amigos, sou a pessoa mais forte do mundo!!!

Então, um brinde à amizade e outro à vida.

E que 2010 nos traga novos desafios e muitas conquistas!!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Perdi.


Esse ano eu perdi muita coisa.

Tem gente que diz que a gente não perde o que não nos pertencia e que se nos foi tirado, era porque, de fato, não tinha que ser nosso.

Ouvi isso pela manhã, ou seja, agora a pouco.

Essas palavras derrubaram todo o argumento do texto que eu tinha escrito ontem a noite, entre laços de presentes, artesanatos que secavam sobre a mesa, uma pizza e a carinha de curioso do Lucca (e as artes do Lilo, que ontem mesmo comeu uma parte da blusa que eu vestia).

No meu texto eu listei coisas que tinha perdido ao longo de 2009. Tudo absolutamente verdadeiro. Era mais ou menos assim:

- janeiro: perdi clientes na assessoria que trabalhava e a crise econômica mundial batia forte. As empresas passaram a cortar aquilo que era supérfluo e comunicação estava na lista.

- fevereiro: perdi meu emprego deposi de mais de 18 meses de trabalho ininterruptos. Acabaei me desentendendo com a chefia, que via em mim a causa da debandada dos clientes e achava que a crise era, assim, uma marolinha. Ainda em fevereiro perdi a convivência diária dos meus pais, e passe a morar sozinha.

- março: depois de um merecido descanso e do início da adaptação sozinha no apartamento, perdi uma vaga de trabalho em uma grande agência para alguém recém formado. Fui considerada boa demais pra vaga.

- abril: perdi o chão por causa de acontecimentos que precisam de muitos posts para serem explicados. Perdi o sono, perdi o viço, perdi a vontade de continuar, perdi a mão comigo mesma e engordei muitos quilos. Pra ajudar, minha mãe estava fora do país. Também perdi a oportunidade de dar início às atividades da agência que eu e uma amiga querida resolvemos criar. O cliente percebeu que não haveria dinheiro suficiente para o serviço quando já avançávamos nos trabalhos.

- maio: fiquei noiva do Zé e perdi a vontade de levar a vida de solteira que eu sempre levei. Nesse mês minha mãe retornou da sua viagem e eu perdi o medo que tinha dela. Em maio também perdemos a Leda, depois de mais de seis anos lutando contra o câncer.

- junho: perdi o tesão da profissão depois de um trabalho realizado no Rio de Janeiro. O cliente me levou à exaustão em todos os sentidos. Cheguei em São Paulo e perdi o fio da meada com o Zé e daí entramos em crise.

- julho: perdi meu relacionamento de quase 5 anos com o Zé, e a aliança perdeu o sentido na minha mão. Também perdi a sensação de viver dias lindos. No fim do mês perdi a crença em certas pessoas, que são capazes de mentir para se manterem em evidência e passarem por bonzinhos.

- agosto: perdi de vez o interesse peloa minha profissão. Nada dava certo, nada acontecia e fui perdendo, aos poucos, o amor próprio.

- setembro: o mês do meu aniversário me fez perder o orgulho e eu pedi ajuda financeira para meu pai. Outro muro que perdeu seus alicerces foi o da resistência do Zé. Voltamos e as alianças perderam o pó da caixinha que as guardava.

- outubro: eu perdi a paz com um trabalho que, apesar de ter sido ótimo e ter me dado de volta o prazer de trabalhar, me deixou toda atrapalhada. Em duas semanas percorri cinco estados. Perdi a paciência em Brasília, por pouco não perdi o vôo em Belo Horizonte, quase perdi a vida num vôo desastrado para Florianópolis. Também perdi a chance de ser efetivada nessa agência após meus job porque a matriz não tinha "money to pay".

- novembro: perdi a falta de vergonha na cara e parti para a reeducação alimentar e perdi alguns poucos quilos. Mas perdi!!

- dezembro: perdi a saúde e tive crises de amidalite, a tireóide parou de novo, a insônia voltou com tudo. Paralelamente, o Zé foi perdendo a vontade de viver e perdeu a mão de novo em nossa relação. Perdemos novamente a velocidade das emoções - enquanto eu acelerava, ele perdia o torque.


Ainda falta uma semana para o ano terminar, e eu acho que outras coisas serão perdidas também. Porém, a única coisa que eu não perdi foi a fé. Nunca perdi a esperança em realizar meus ideiais.

Acreditando que o amanhã podia ser melhor, e bastava para isso que eu me empenhasse, cheguei na reta final de 2009 mais leve, depois de perder tantas coisas.

Mas no meio disso tudo, ganhei algo que será fundamental para transformar 2010 num ano mágico: a maturidade.

Por isso, hoje eu desejo a todos que percam seus medos, que percam a vergonha e que percam a inércia que os mantem parados. E que vocês não percam nunca o verdadeiro sentido que essa data tem: o renascimento.

Que a paz que eu trago hoje em meu coração alcance todos vocês.

Um beijão e FELIZ NATAL!!


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"Se eu pudesse deixar algum presente a você, deixaria o acesso ao sentimento de amar a vida dos seres humanos. A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo afora... Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem. A capacidade de escolher novos rumos. Deixaria para você, se pudesse, o respeito aquilo que é indispensável: além do pão, o trabalho. Além do trabalho, a ação. E, quando tudo mais faltasse, um segredo: o de buscar no interior de si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída." (Gandhi)


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

E dá-lhe Fabrício!


Não, não estou me referindo a algum paquera novo, nem ídolo de tevê ou da música.

Estou falando de um dos autores que eu mais gosto: Fabrício Carpinejar.

Pra variar, o cara, que sequer sabe que eu existo, contou mais uma passagem da minha vida. E com riqueza de detalhes, o que é pior.

Me vi esmiuçada em seu texto, desnuda e desamparada.

Entendi hoje o sentido da expressão "mal-amada".

Segue o texto:


AUMENTE SUA DELICADEZA ATÉ 28cm


O que leva o homem à impotência é o cuidado.

O que leva a mulher à frigidez é o cuidado.

O excesso de cuidado.

Cuidado demais ataca.

Nunca vi uma mulher ou um homem gostar sem criticar.

O embaraço do sexo não decorre da ausência de intimidade, mas da intimidade. E da cobrança que vem com ela.

Mais fácil gozar com estranhos.

Depois de partilhar meses e cadernos de jornal com nosso par, abandonamos o elogio. Passamos a cobrar e expor os defeitos para que sejam corrigidos. É o cigarro, é a alimentação, é a distração, é o pouco caso com o dinheiro, é a indeterminação do trabalho, é a preguiça.

A convivência traz a preocupação com o namorado ou a namorada e uma esquisita vontade de interferir. Entre conhecer e mandar, é um passo. Ou um tropeço.

As mais duras agressões não provocam hematomas, ocorrem em nome da sinceridade. O amor é confundido com pancadaria. Um teste de resistência. Uma prova de esgotamento nervoso. Se o outro não quer, que vá embora, que desista do prêmio maior que é a confiança.

Há uma visão sádica que não ajuda nem o masoquista. Falta medida. Falta parar e recomeçar o namoro. Falta esquecer e perceber que o próprio passado não é imutável, não existe certo ou errado, que nem tudo por isso é duvidoso.

A eficácia mata o erotismo. O aproveitamento total do tempo do relacionamento não colabora com a vaidade. Custa um agrado antes de transar? Uma meia-luz de palavras? Não estou pedindo para mentir, muito menos fingir, mas falar um pouco bem para acordar os ouvidos e despertar o interesse.

No início, os joelhos são venerados, os ombros recebem moldura de madeira, os cabelos são alisados com a decência de um espelho. As expressões afetuosas vão e voltam, repetidas com diferentes timbres. Todo homem no começo é, ao mesmo tempo, um tenor, um barítono e um baixo. Toda mulher no começo é, ao mesmo tempo, uma soprano, uma mezzo e uma contralto.

Dependendo da região que toca, a voz muda. Com a relação firmada, a excitação torna-se automática. O corpo tem que pegar no tranco.

A devassidão é trocada pela devassa terapêutica. Desculpa e por favor saem de moda. Como existe o trabalho, a casa, o dia seguinte e terminou a paixão (e somente os apaixonados são sobrenaturais e não sentem cansaço), o sexo pode ser mais prático, mais direto, pode até não ser.

Na cama, estaremos falando dos problemas, das contas, do que deve ser mudado na personalidade.

Não encontraremos paciência diante do relógio.

Não vamos procurar cheirar a pele para atrair o beijo.

Eu compreendo perfeitamente quando um homem broxa se a cada instante é lembrado que é barrigudo. Eu compreendo perfeitamente quando uma mulher decide dormir quando sua lingerie nova não foi reparada.

Nunca acusamos quem a gente não conhece.

Julgamos infelizmente quem vive nos absolvendo.


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Não preciso dizer mais nada...

E essa parte da minha vida eu chamo de felicidade.


Acabei de assistir o filme A Procura da Felicidade.

Não tinha assistido antes, embora muita gente havia dito que era bonito, emocionante. Não sei, mas na época o título não me chamou a atenção.

Porém, hoje eu precisava mesmo ter visto cada cena, ter ouvido cada palavra. Guardadas as devidas proporções, é claro, aquilo é quase a história da minha vida.

Pra começar, nasci numa família formada às pressas porque minha mãe estava grávida e meu pai, motorista de táxi naquela época, e cheio de brios, resolveu que casar seria, aquela altura, o mais sensato. Nasci seis meses depois do casamento deles.

Três anos e alguns meses mais tarde, em fevereiro de 1978, meu único irmão nascia também, formando de vez a nossa família.

Historinha comum, eu sei, até porque muita gente tem uma igual ou parecida. Mas o que tinha ali que me transporta à história do filme é um pai obstinado em prover, salvar, dar felicidade à sua família. Mais que isso: dar dignidade à sua esposa e educação aos seus filhos por mais difícil que isso pudesse ser.

E assim foi.

Mas não sem antes passarmos por inúmeros percalsos.

Morávamos de aluguel e meu pai nem sempre tinha o valor inteiro para pagar. Lembro bem das vezes que o sr. Peres, o senhorio, ia até lá em casa e conversava com meu pai e aceitava esperar mais uma semana, dez dias, para o pagamento integral. Eu, meu irmão e minha mãe ficávamos no quarto, aguardando a negociação.

A cara de "está tudo bem agora" do meu pai é algo que eu nunca vou esquecer. Simplesmente porque não estava tudo bem, afinal, ele tinha uma semana para conseguir o que não tinha conseguido em um mês.

E assim seguimos até 1983, ano em que sofri aquele grave acidente (relatado num dos primeiros textos desse blog). Nesse tempo meu pai tinha uma lanchonete, muitas dívidas e uma filha acidentada que precisava de um tratamento adequado. Adequado e caro, diga-se de passagem.

Aliás, lembro bem do Natal daquele ano. A festa foi na casa do meu tio Rubinho, irmão mais novo do meu pai.

Todas as pessoas da rua em que ele morava faziam uma grande festa com comidas, bebidas, brinquedos e um Papai Noel que chegava numa Brasília marrom. Nesse ano em específico, eu e meu irmão tivemos um presente apenas para cada um: eu ganhei uma boneca e o Fábio um carrinho (vou scanear a foto e postar aqui. Aliás, essa foi a minha primeira foto depois do acidente). Era o que meu pai podia dar.

Na virada de ano, ao contrário da festança natalina, tínhamos apenas um frango, salada de alface e arroz branco. E nossas vizinhas do andar de baixo abriram uma espumante e nos ofereceram em copos plásticos coloridos.

E isso tudo ficou gravado na minha memória com cores tão vivas que às vezes me assusto e me pego chorando, emocionada, por lembrar de tantos detalhes (ou porque a tal boneca foi a única coisa material que sobrou daquela época).

No ano seguinte meu pai vendeu a lanchonete e partiu para uma área que ele nunca havia trabalhado, mas alguém, em algum momento, resolveu dar uma chance. E ele soubre aproveitar e acho que nunca mais vi meu pai chorar por causa de necessidades materiais (bem, na verdade ele nunca chorou na nossa frente, mas mesmo sendo criança sabia que certas coisas não iam bem e os olhos vermelhos acabam denunciando aquilo que eu supunha).

E assim foi o primeiro passo para conseguirmos escalar a escadaria da felicidade.

Meu pai foi se dedicando, aprendendo, aprimorando, até que apareceu uma nova oportunidade, na mesma área e em outra empresa. Nesse período ele recebeu um certificado de uma importante empresa de auditoria atestando de que ele era o melhor profissional em seu segmento. Bem, pra quem não fez faculdade e nem segundo grau, aquilo era (e acho que ainda é) um verdadeiro diploma.

Dessa empresa para a que ele está hoje foi um pulo e um grande desafio: montar uma equipe e fazer uma indústria gráfica que só tinha máquinas dar lucro. E lá se vão dez anos.

Ele venceu muitos obstáculos ao longo desses 35 anos.

E apesar de tantos nãos, realizou cada sonho. E na próxima quinta-feira ele vai dar uma bela festa de Natal em sua casa. Ele merece.

Daí que eu me pego olhando todo o meu passado e esse exemplo chamado Roberto e me vejo na mesma situação.

As únicas diferenças é que ele não tinha ninguém pra ajudá-lo e eu tenho meu pai. Mas mesmo assim sinto uma insegurança tremenda a cada passo.

E esse ano está sendo a prova cabal de tudo isso: depois de tantas mudanças, tantas reviravoltas, consigo enxergar que 2009 foi um ano estupidamente difícil, mas maravilhosamente bom porque eu superei muitos obstáculos que apareceram (e apesar de achar que vieram todos de uma vez só, tenho certeza de que outros virão em breve).

Também paguei o preço de cada escolha que fiz.

Ainda estou desempregada, vivendo de minguados freelas. Ainda tenho dívidas, ainda tenho muitas dúvidas. Ainda tenho um orgulho besta que me impede de pedir mais ajuda. Ainda tenho a dignidade de saber que não posso viver sozinha. Jamais!

Ainda tenho muitas batalhas para travar e a maioria é comigo mesma. Ainda tenho que crescer, ou como diz meu pai, comer muito arroz com feijão pra ser gente grande.

Em 2009 perdi gente querida pra sempre, perdi gente que amava, perdi chances, oportunidades de trabalho, oportunidades de ficar quieta, oportunidades de me declarar ou de aceitar uma mão estendida ou ainda um acalanto para um coração que batia em descompasso.

Nesse ano que eu resolvi morar sozinha eu descobri a necessidade que eu tenho de estar perto das pessoas que amo, sejam parentes, sejam amigos, assim como também descobri de que definitivamente não gosto do silêncio, da casa vazia, das coisas arrumadas, como se não tivesse mais vida aqui dentro. E pensar que eu tenho filho e bicho...

Também não gosto de dormir sozinha e acordar sozinha naquela cama de casal - descobri que mais do que ser companhia, eu quero ter uma companhia.

E nesses últimos dias eu também passei a ter a certeza de que se eu não trilhar as mesmas estradas virtuosas do meu pai, ainda assim serei vencedora porque, pelo menos, eu tentei com todo o meu coração e esforço. Tanto é que se eu olhar naquele espelho que a Carla (uma amiga mega-querida) vivia me oferecendo pra eu ver a verdadeira Andréa, vou encontrar alguém que sabe o valor de cada tombo, e a delícia de conseguir levantar, com a certeza de que outras situações ainda virão. E eu vou encarar cada uma delas, sempre com aquele meu sorrisão na cara (minha marca registrada).

E se, como no filme eu tivesse que nomear cada fase que passei, sem dúvidas, essa parte toda da minha vida eu chamaria de felicidade.




sexta-feira, 27 de novembro de 2009

L.E.R.


Estou sofrendo de L.E.R. - lesão por esforço repetitivo.


Há anos venho fazendo o mesmo movimento, da mesma forma, várias vezes por dia. Como percebi que a coisa começou a ficar insuportável de uns tempos pra cá (cerca de seis meses), passei a mudar uma coisinha aqui, outra acolá. Mas os paliativos não estão me levando a lugar algum.


Portanto, só me restam duas alternativas que, diga-se de passagem, se complementam. A primeira é parar com o maldito movimento e a segunda é tratar o que ainda dá pra ser tradado. Porque, diferente das lesões físicas, musculares, que muitas vezes não se recuperam, a minha é emocional e pode ser tratada.


Sofro de L.E.R. emocional. Tenho fibromialgia na alma.


Já me dói só de imaginar que eu terei que fazer algum movimento no mesmo sentido que ontem, anteontem, semana passada, mês passado. Estender a mão para quem não quer ajuda faz doer não só o meu braço, como pesa em minha alma. Fazer pelo outro e não ser percebida tem me machucado constantemente. E olha que a pessoa precisa de ajuda...


De certa forma, eu acabei de acostumando com a dor porque sabia que era passageira. Mas daí a passar um semestre nisso já é demais! Saiu do meu controle. Porém, o mais engraçado é que quanto mais se atinge o ponto inflamado, mais distante parece a dor. Chega a ser paradoxal, eu sei.


Já não consigo mais distinguir aonde dói. Tem horas que parece uma pancada qualquer, dessas que a gente dá na quina da mesa ou na porta só por ser estabanado. Tem horas que é lancinante e me paralisa. Mas em ambos os casos a culpa ainda é minha - seja por ser afoita e querer fazer tudo correndo, atropelando momentos, passando por cima do relógio emocional da(s) pessoa(s), seja por ainda ouvir um coração que bate em descompasso com a realidade.


É fato. Esses movimentos que tanto me machucam já são automáticos. Desconfio que os repito há mais tempo do que imagino, por isso a coisa já ficou crônica. E cada vez que uma necessidade de alongamento de sentimentos se faz necessária, julgo que sentirei dor e me retraio. Sem ao menos saber se será danoso ou não.


Como disse antes, preciso tratar essa lesão com urgência. Daqui a pouco terei virado uma estátua fria, sem emoções, sem capacidade de movimentos sutis (em busca de sentimentos igualmente sutis).


Cheguei mesmo ao meu limite.


E só descobri isso porque me restou apenas o movimento do pescoço para olhar para trás e ver que fiz tudo errado. De novo.