sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Flores e sementes

Já faz nove meses desde o último post aqui - praticamente uma gestação completa. Talvez seja a que eu não tive, já que o Lucca nasceu antes do tempo.
Ah! O tempo... Tenho brigado com esse senhor implacável desde sempre, mas só há pouco percebi que o que vivo tentando buscar num tempo passado voltará num tempo futuro. Com outra cara, eu sei, mas voltará. Como a primavera, que todo ano floresce, com suas flores de sementes diferentes.
Depois de esquecer meus fantasmas junto com a poeira debaixo do tapete decidi encará-los. Ando lutando com meus fantasmas.  Ando buscando minha identidade. Ando procurando meu espaço.
Uns dias tenho arranhões, em outros crio cicatrizes.
Sigo meus dias em passos pequenos, como se minhas pernas não pudessem chegar ao outro lado da sala. Olho por sobre a mureta da varanda para ter a certeza de que há, sim, vida lá fora. Vejo as árvores tão grandes que ainda me sinto semente.
Vou brotar, embora ainda me falte algumas primaveras.
Mas a certeza do crescimento habita em mim, assim como as flores que carrego em meu peito, tal qual um Ipê, que fica desprovido de folhas para dar lugar às flores.
Hoje estou desprovida de tudo o que carregava na última estação. Uma tempestade levou tudo o que eu jugava saber equilibrar. Sobraram galhos secos. Um dia, das pontas, ainda vão brotar flores (eu sei).
Além disso, minha madeira é de lei, e suporto muito mais do que minha frágil aparência possa parecer.
Ainda sou semente, mas sei que vou atingir altura suficiente para ver as coisas por outro ângulo
Nesses últimos nove meses puder morrer e nascer de novo - como num ciclo de estações. E estou vendo e aprendendo tudo de novo. Para que os dias sejam mais floridos, e o espaço seja, definitivamente, meu.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Como os nossos pais.


Dei um tempo de quase um ano aqui. Foram oito meses de "reclusão" voluntária para por a minha vida em ordem, a minha carreira nos eixos, e para encontrar um caminho que fosse.
Bem, a carreira deslanchou, tanto é que, quando havia inspiração, o tempo era escasso. Tinha ideia de um ou dois textos, mas não conseguia contretiza-los.
Pensei em desistir daqui.
Acontece que uns quize dias atrás, indo a trabalho para Belo Horizonte, e com um livro de Clarice Lispector nas mãos, olhei as nuvens (já que estava sobre elas) e algo soprou em meus ouvidos dizendo que era preciso continuar. Afinal, não posso guardar o que tenho de tão forte dentro mim só pra mim.
No retorno, ainda no mesmo dia, não pudemos decolar porque Congonhas estava fechado por causa das chuvas em São Paulo. Esperamos por 45 minutos e daí saquei meu caderno e escrevi dois textos. Foi como um parto prematuro (de oito meses, no caso) em que tudo é inesperado.
Tive a certeza de que não adiantava nada lutar contra algo que é intrínseco, que faz parte da minha essência: as minhas histórias, de certa forma, se repetiram ao longo dos anos e eu perpetuei atitudes idênticas e não cheguei a lugar nenhum. Sofri até resolver seguir o curso natural das coisas.
Enfim...
Dias depois, indo à escola do Lucca para fazer sua matrícula, e debaixo de uma chuva absurda, tocou no rádio a música "Como nossos pais", de Elis Regina.
Petrifiquei - a primeira vez que ouvi cada verso dessa música foi no dia em que descobri que estava grávida. Meu mundo desabara naquele instante e eu precisei escolher um caminho, uma direção, quase que imediatamente.
Enquanto dirigia ouvindo a música conclusão que o caminho que venho percorrendo é igual aos dos "nossos pais".
E tudo o que eu pensei em fazer diferente dos meus pais, venho repetindo de forma sistemática nos últimos anos. Talvez seja um ciclo, talvez seja até normal isso tudo, talvez seja necessário para que eu trilhe a estrada que esolhi com segurança. Talvez...
Hoje tenho 36 anos, meu filho vai fazer 11  mês que vem, sou assessora de imprensa de uma das maiores companhias aéreas do País e tenho ao meu lado o homem que amo.
Hoje olho com carinho e respeito tudo o que passei porque, afinal, consegui superar todos os obstáculos.
Estou bem e sou feliz assim, e sigo vivendo. Embora consiga perceber que apesar de ter feito tudo o que fiz, ainda sou a mesma e vivo como os meus pais...

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Como Nossos Pais
(Elis Regina)

Não quero lhe falar,
Meu grande amor,
Das coisas que aprendi
Nos discos...

Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração...

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...
Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê

É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...






segunda-feira, 17 de maio de 2010

Do tempo. Ou, sobre o envelhecer.


um mês tive que dar boas-vindas aos primeiros fios de cabelos brancos. Nunca havia me preocupado com isso antes, até porque, durante um bom tempo, coloria meus cabelos. Daí que quando resolvi deixar as madeixas da cor natural, me deparo com a surpresa.

Ok, concordo que cabelos brancos não são sinal de velhice. Meu irmão tem cabelos brancos desde os vinte e poucos anos – herança genética do meu avô, um senhor de 89 anos completamente grisalho desde a tenra idade também. Porém, como eu disse antes, me deparei com essa surpresa “desagradável” numa fase em que já vinha mastigando a idéia do envelhecer.

Envelhecer não é opção: é condição de vida. Ou você aceita e vai se adequando e aproveitando o que a maturidade lhe traz, ou vai viver como uma Susana Vieira, que jura por Deus que ainda tem 29 anos. Aliás, aceitar o RG é necessário para conseguir entender as mensagens contidas nas rugas.

Eu, por exemplo, não tive a tal crise dos 30 porque não me sentia com 30. Sempre tive um espírito muito jovem, tanto que certa vez um ex-chefe até me classificou como Peter Pan, o garoto que não queria crescer.

A crise só bateu quando percebi que meu filho estava com 10 anos.

Olhei pra trás e vi que uma década havia escorrido entre meus dedos.

Meu Deus! É muito tempo!, pensei.

Talvez porque tudo tenha acontecido de uma forma tão amedrontadoramente rápida eu não tenha sentido o tempo passar: a gravidez, a interrupção da adolescência tardia, o ganho da imensa responsabilidade de ser mãe solteira, a questão financeira, a questão emocional... Não tive tempo de ter crises...

No dia que percebi meus cabelos brancos também notei as linhas de expressão no meu rosto, as olheiras. Envelheci mesmo. E envelheci muito mais no último ano do que durante toda a última década.

A minha imagem no espelho é hoje o reflexo das minhas escolhas. Não sou mais menina. Aos quase 36 anos sou mulher.

Guardei para mim esse segredo, certa de que poucos iriam notar as sutis diferenças. Mas eis que o Zé me surpreende e confessa, como num sussurro, que também envelheceu. Olhei para seu rosto e de imediato não consegui ver nada de diferente, afinal, para mim ele ainda é um molecão!

Daí que diante da minha negativa, ele quis me provar mostrando fotos nossas tiradas ao longo de quase seis anos de convivência. E qual não foi a surpresa ao nos depararmos com tantas mudanças!

O tempo passou para os dois e deixou marcas. Talvez se a vida não tivesse judiado tanto dele, e não tivesse inventado tantos obstáculos para mim, talvez tivéssemos ainda o vigor dos vinte e poucos anos.

Talvez...

Mas se talvez o tempo não tivesse passado, jamais teríamos a oportunidade de amadurecer, nem de admirar a atual beleza de nosso olhar, que carrega tantas histórias pra contar.

Bem, pelo menos estamos no caminho de realizar uma vontade em comum: ficarmos velhinhos, sentados lá na varanda e mãos dadas. Pra sempre!


PS: tenho mesmo muita história para contar, porém, eu ainda não aceitei totalmente a idéia de estar já na meia-idade...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

E a adolescência, enfim, chegou.

video


Como o próximo domingo é Dia das Mães, resolvi tocar no assunto porque, na verdade, meu texto vai para o caminho do desabafo.

Todo mundo sabe que eu sou mãe-solteira do Lucca, que hoje está com 10 anos. Assim como todo mundo sabe da ausência velada de seu pai, que nunca nos ajudou, e só aparecia em datas cívicas e comemorativas, para ostentar o filho limpinho, educadinho e bonitinho.

Anos se passaram e eu fui vencendo os milhares de desafios que vida foi impondo e, do meu jeito, fui fazendo do Lucca um cara legal.

Acontece que um "mal necessário" anda rondando a minha casa: a adolescência. Pode parecer muito cedo para isso, mas afirmo que não é. Hoje em dias as fases são antecipadas e quando menos esperamos a coisa aparece.

Só que eu não estou conseguindo lidar direito com isso porque descobri em meu filho uma força interior que há muitos anos não via. Ele tem características minhas tão fortes, tão marcantes que eu realmente não sei o que fazer. Me vejo em muitas de suas respostas ou de suas indagações.

Não, ele não é um monstrinho. Mas se torna um alien quando eu não reconheço mais o meu "filhinho" em nada, e as atitudes que eram tão previsíveis, tornam-se uma supresa atrás da outra.

E os sinais são clássicos: interesse pelas meninas, alguma rebeldia, vontade de ficar sozinho o tempo todo, dizer que ninguém o entende, não suportar ser beijado ou abraçado em público por mim ou pelos meus pais, e dentro de casa ainda agir como uma criança.

Concordo que essa fase é um verdadeiro limbo: não são nem crianças, nem adolescentes de fato. Nem eles mesmos se entendem, se reconhecem.

Semana retrasada ele foi numa balada, a primeira em sua vida. A festa começava às 19h30 e terminava as 23h30. Só consegui sair de lá (depois de quase meia hora esperando uma vaga para estacionar e ligando insistentemente para meu filho, que não atendia) quando já passava da meia noite, e as meninas dizendo a todo o momento que o Lucca era "muito fofo". No dia seguinte ele dormiu até às 11h, e quando acordou disse que não era para eu fazer muito barulho porque ele estava de ressaca. Ressaca de suco de uva e guaraná!! A noite ele foi dormir na casa de um amigo, e ficou mais dois dias curtindo a vida a doidado.

A semana passou e ele deu as suas primeiras pisadas na bola, típicas de adolescentes também: simplesmente esqueceu de uma prova de recuperação de história e teve que fazer na última hora, perdendo o horário da natação inclusive, e depois a prova substitutiva de gramática, que ele jurava não saber o conteúdo porque a professora não havia passado.

Daí que eu descobri que ele mesmo havia escrito em sua agenda todo o conteúdo para todas as provas. E ele insistindo em não saber, ou não me falar a verdade.

Juro que perdi a paciência naquele momento. Falei um monte de coisas, dei bronca, e cheguei até bater nele com a agenda. Conclusão: ele está de castigo até o dia 10/5 sem computador, TV a cabo, video games ou qualquer outro tipo de game, DVD´s, e caso as notas venham abaixo de 7,5, o álbum de figurinhas da copa será confiscado até o fim do campeonato.

Ou seja, tive que tomar medidas extremas para que os limites sejam esclarecidos, e ele perceba que por mais que esteja crescendo, ainda é uma criança. mas confesso que fui dormir me sentindo péssima, culpada por não poder estar mais perto dele, por não acompanhar as lições, por não ser mais presente em sua vida.

Neste sábado, o amigo que ele passou o outro fim de semana fez aniversário, e diante da vontade do garoto, os pais (que são amigos muitos queridos), promoveram uma baladinha em casa. A festa começou cedo e terminou tarde, acreditem.

Juro que me assustei diante da postura do Lucca na festa: ele já não era mais aquela criancinha que a todo instante corria para mim. Era alguém com personalidade própria, vontades próprias, atitudes próprias. Pra falar a verdade, acabei dando risanda diante de seus jeitos e trejeitos com as meninas, a forma com que jogava o cabelo pro lado e falava com uma entonação mais grossa. Viemos embora com ele trocando telefones com as novas amigas e prometendo ligar...

E como ontem eu continuava firme no meu propósito do castigo, ele veio conversar comigo. Admitiu a pisada na bola, pediu desculpas e aceitou que a punição fosse mantida. No fim chorou e me abraçou, dizendo que me ama muito e, finalmente, se abriu dizendo que a vida dele não estava muito fácil porque em menos de um ano tinham acontecido muitas mudanças e muitas perdas, afinal, pessoas que ele ama foram embora.

Nessa hora caiu a minha ficha: ele perdeu algumas de suas referências com a mudança dos maus pais, do meu irmão, a morte da Leda e da Vó Nora, além da condição financeira que está aquém daquela que tínhamos. A maturidade e a adolescência chegaram de vez em seu caminho. ambas empurradas.

Depois de ouví-lo, o abracei bem forte, beijei sua testa e assumi que sou completamente doida por ele.

Talvez por já ter passado por tudo isso eu acredite que estou no caminho certo. Porque, afinal, ser mãe é andar tateando no escuro num enorme salão de baile.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Histórias para contar.


Tenho muitas histórias para contar.
Aliás, acho que todo mundo tem. Ou, pelo menos, deveria ter. A nossa própria vida é uma história, com todos os desdobramentos imprevisíveis que uma boa história precisa ter.
Tem gente que vive em crônicas, tem gente que vive numa saga interminável, tem gente que vive poesia. Tem gente que vive, por incrível que pareça, em hai-kai.
Acho que sou crônica o tempo todo: cada dia uma, com uma tema diferente, um olhar específico para cada assunto.
Talvez seja por conta da minha profissão. Tem até uma brincadeira que diz que assessor de imprensa conhece um oceano de coisas, com a profundidade de um dedo. Já fui assessora de Danoninho, de defensivo agrícola, de chocolates, biscoitos, sucos, sobremesas, moda, médicos, laboratório farmacêutico, educação e mais um monte de outras coisas. E para escrever e divulgar tudo isso, precisei ler, pesquisar.
Além disso, tem um traço da minha personalidade que me faz ter atenção em tudo isso e, assim, ligar um assunto com outro é apenas questão de memória
Nessa minha profissão, exercida desde 1996, coleciono muitos micos - uns deprimentes, outros hilários, como a vez em que a marca de sobremesa láctea cremosa (melhor não dizer a marca aqui...) que eu atendia resolveu fazer uma ação para combater um produto lançado pelo concorrente. A brilhante idéia era apenas misturar o doce no sabor chocolate com leite e levar ao microondas (para ter um chocolate quente super-cremoso), e o meu trabalho consistia em oferecer a novidade aos jornalistas, dando de brinde uma caneca.
Até aí, OK.
No meio da entrega dos brindes recebo a notícia de que a caneca não podia ser levada ao microondas, e que também não comportava todo o conteúdo do preparo.
Conclusão: tive que ligar para todos os jornalistas da minha lista e avisar que a caneca era só um "mimo" (ou seria um mico??).
Tem também a história do médico cirurgião vascular que realizava cirurgias de aumento peniano, e eu tinha que divulgar a proeza do doutor, é claro. Duro mesmo (com o perdão do trocadilho infame) era a risadinha abafada e tensa dos jornalistas do outro lado da linha. Graças a Deus não consegui emplacar nada...
Tem também a comédia da vida privada. Algo bem particular, meu.
Costumo rir das minhas trapalhadas (como o dia em que bati a cabeça no suporte do microondas ao tentar salvar um copo que "pulou" do escorredor de louças. Ganhei um galo na testa e o copo espatifou no chão).
Costumo dizer "bom dia, Dia" todas as vezes que vejo o sol nascendo, mesmo achando isso brega. Também costumo olhar fotos para reviver as histórias. Tem algumas que ainda estão tão vivas na minha memória que cheiros e sensações parecem estar impregnados no papel.
Tenho muita história pra contar.
Já vivi muita coisa e sei que ainda vou viver muito mais.
Tenho muita história pra contar porque meus dias não são vazios. Aliás, minha vida é repleta de acontecimentos enriquecedores - bons e ruins. Tenho fases que viram histórias. Assim como histórias, que ficaram presas em tempos que não voltam mais.
Estou chegando aos 36 anos, tenho um filho de 10 anos e lá se vão quase 14 de profissão. Ainda sou solteira. Ainda sonho em ter um companheiro. Ainda penso em ter uma família maior.
Também penso em ter minha lojinha de artesanatos, ou minha floricultura, ou uma loja de paisagismo. Ainda penso em ir embora de São Paulo, morar perto de uma praia, ter uma vida mais tranquila.
Conto todos os dias a história dos meus sonhos, dos meus planos, porque dessa forma me mantenho viva.
E assim vou contando pra mim mesma a história da minha vida. Porém, há alguns dias venho escutando algo que já não satifaz mais. Talvez porque já está na hora de começar outro capítulo. Afinal, a mocinha anda precisando de um final feliz.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Programa de mulherzinha (pra depois do susto).


Há uns dias tive um grande susto com relação a minha saúde. Graças a Deus não foi nada grave, porém, só o sobressalto de ficar dois dias num hospital, sem que algum médico conseguisse chegar a um diagnóstico decente, foi realmente aterrador.

No dia 12 de março, em plena sexta-feira, comecei a ter uma dor de cabeça que não passava com nenhum dos remédios que estou acostumada a tomar. No sábado acordei sem dor, porém, bem indisposta. Pra ajudar a empregada deu o cano e eu tive que "abraçar" a causa e partir pra faxina geral. No domingo acordei péssima, pesada, com uma dor de cabeça insuportável. Tive dois princípios de desmaio e quando percebi que não tinha forças nem pra escovar os dentes, fiquei quietinha, deitada na minha cama. Só que o mal estar não passou e daí apelei pra minha mãe. Fomos ao hospital e daí vocês imaginam como é atendimento de emergência em pleno domingo...
A médica neurologista, em menos de dez minutos de consulta virou-se para minha mãe de atestou: "sua filha está com síndrome do pânico".

Opa! Peraí!!!! Eu??? Com síndrome do pânico??? Como assim???

Eu estava com a pressão alta (17x7), uma dor insuportável, assustada, e com muito enjôo. Isso era enxaqueca, na minha opinão. Fiquei internada na enfermaria até às 23h, tomando remédios fortíssimos para tirar a dor e baixar minha pressão. Fui liberada, voltei pra casa e fui direto pra cama.

Eis que acordo na segunda-feira, às 6h, pra chamar o Lucca para a escola e percebo que meu rosto está paralisado no lado esquerdo. Não consigo falar, e aquilo vai me assustando cada vez mais. Pensei "estou tendo um AVC"!!

Liguei para minha mãe imediatamente, que foi me buscar, e rumamos para o hospital. Dei entrada direto na emergência, e dessa vez fui atendida por um médico muito atencioso, humano e acima de tudo, preocupado. Fiz tomografia, ressonância, mil exames de sangue, exame de urina, fiquei em observação, com o médico analisando a possibilidade de ser stress, enxaqueca, microtromboses no cérebro ou, até mesmo, princípio de esclerose múltipla. No fim, o resultado foi meio óbvio: crise aguda de stress.

Mas como, se agora está tudo bem na minha vida?, perguntei para o médico. E ele me respondeu que é só depois que o "furação" vai embora é que podemos ver, realmente, o tamanho do estrago. Ou seja, como o ano de 2009 foi muito pesado para mim, e logo de cara de em 2010 eu perco minha avó e uma amiga querida (além do excesso de trabalho), meu corpo quase pediu "falência". E como dizia uma terapeuta que eu me consultava há uns anos, "quando a gente não para na vida, a vida dá um jeito de parar a gente". E foi isso mesmo que aconteceu comigo.

Conclusão: vou ter que fazer um baita check up com diversos especialistas para controlar (ou até mesmo brecar) outras possíveis futuras crises. Sem contar que eu tô batendo na casa dos 36 anos logo mais...

Bem, mas o que isso tudo tem a ver com o título??

Explico: ganhei um day spa e fui desfrutar o meu presente no último sábado. E foi muito bom!!!
Programa de mulherzinha mesmo, com direito a banhos de hidromassagem, duchas ativadoras, massagens, relaxamentos, chazinhos, frutinhas, florzinhas, e todos os outros diminutivos que nós, mulheres, simplesmente amamos. Afinal, não existe nada mais gostoso do que receber cuidados especiais!

Logo depois passei pelos serviços de manicure, pedicure, design de sobrancelhas e saí de lá, horas mais tarde, leve como uma pluma. Tanto que dormi feito um anjo o resto da tarde.

No sábado a noite fiquei pensando em tudo o que aconteceu, na obrigação de desacelerar, no dia delicioso no spa e cheguei à conclusão que é mais do que necessário que eu dedique um tempo só para mim. Quando nos permitimos pequenos prazeres, criamos uma "barreira natural" que impede crises como aquelas que tive.

No meio desse furação todo, ficou na minha lembrança uma brincadeira do médico quando, depois de analisar todos os meus exames, me pediu para abrir bem os braços e imaginar se, naquele espaço, dava para eu abraçar o mundo. Diante da minha negativa, ele sorriu e disse: "ótimo! Então ocupe esse espaço com coisas realmente importantes e de valor, como um abraço, por exemplo". Dito isso, recebi um abração e minha alta. E fui embora aliviada por saber que, dessa vez, tudo teve um final feliz.

terça-feira, 2 de março de 2010

O dom.


“Relacionar-se é vocação, difícil e rara. A concentração é contínua, o trabalho é de artesão. Um desafio delicioso”
Cinthya Verri


Com essa frase, um dos meus autores favoritos (Fabrício Carpinejar) abriu um de seus últimos textos: http://carpinejar.blogspot.com/2010/02/separacao-criativa.html. A pessoa que diz a frase nada mais é do que sua namorada e, dessa forma, conseguiu traduzir perfeitamente o "pulo do gato" de uma relação.


Só se relaciona quem tem o dom, quem tem vocação. Quem não tem paciência com o outro dificilmente saberá superar os obstáculos que uma relação tem. E também dificilmente conseguirá ter uma relação com alguém porque sua capacidade é limitada às palavras proferidas e aos "muros" que criou em torno de si próprio. Também é preciso ter tempo, já que ter alguém demanda um tempo enorme para se descobrir, para se encontrar ou reencontrar.


Relacionamento às vezes parece uma corrida de obstáculos: a cada 100m tem alguma coisa pra impedir o avanço, pra fazer voltar atrás ou simplesmente empacar, desistir. Porém, se há uma vontade em comum, a cada cancela saltada vem a sensação de paz, de recomeço.


Ter alguém é ter que engolir sapos às vezes. Ou brejos. Ou um ranário completo. Para se ter paz num relacionamento é preciso, além da paixão, um bom sistema digestivo pra digerir pedras e algodão doce ao mesmo tempo. Porque o amor é o algodão doce - aquela coisa real, mas tão delicada que se dissolve num toque. Mas se saboreada entre os dois traz a sensação doce de proximidade.


Posso até ser crucificada, apontada, criticada, mas hoje prefiro me manter num relacionamento seguro, estável, com uma série de obstáculos superáveis, do que partir para a aventura do começar de novo, e aprender quais são as "sensibilidades" do parceiro e ficar driblando, tal qual um zagueiro da segunda divisão, os medos e o desconhecido. É como tentar dançar uma valsa num quarto escuro e apertado, e sem saber onde o parceiro está. Eu gosto mesmo é do desafio diário de continuar conquistando (e ser conquistada por) alguém que está há cinco anos do meu lado.


Como disse no começo, se relacionar é dom. Mas a arte mesmo está em manter por tanto tempo a chama acesa, mesmo que ela pisque em algum momento.