domingo, 9 de agosto de 2009

Dia das Pães.


Bem, para quem ainda não sabe, sou mãe-solteira do Lucca, um moleque lindo, que tem nove anos e meio.
Durante muito tempo esse título me incomodou bastante, afinal, era o atestado de que alguém não quis nem a mim, nem ao meu filho. Também, durante muito tempo, eu carreguei essa missão como um ranso, como uma forma negativa comigo mesma, porém nunca com o Lucca!.
Mas com o passar dos anos, fui percebendo que ser "pãe" (pai e mãe ao mesmo tempo) era muito mais o que um fardo: era a maior responsabilidade que alguém pode ter. Daí comecei a encarar essa tarefa com mais amor ainda.
Que a mãe tem muito mais influência na vida dos filhos, isso ninguém contesta. Que a presença masculina do pai é fundamental, idem. Mas de que adianta tudo isso se os valores que passamos não condizem com aquilo que somos?
Hoje em dia tenho percebido pais que preferem que seus filhos sejam maquiavélicos e competitivos para se sobressairem entre os outros. E os valores como o bom caráter e a honestidade desceram ladeira abaixo.
Essas pessoas usam suas crianças para satisfazerem seus próprios egos, para suportar frustrações, limitações, para realizar sonhos. E daí que a criança acaba se tornando a sombra da escuridão de seus pais. Depois, mais tarde, um adulto ambicioso e talvez um ser humano desprovido de emoções verdadeiras.
Tanto que não existe frase mais verdadeira do que a "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". É a Raposa falando sobre a verdade, no livro o Pequeno Príncipe.
Por isso nunca escondi nada do Lucca. Sempre procuro explicar de uma maneira que ele, no alto de seus nove anos, entenda. Por pior que seja a situação, ele está sempre por dentro.
Não quero um filho alienado.
Quero alguém que entenda que ser pai-e-mãe nem sempre (ou quase nunca) é fácil. É não ter respostas na ponta da língua sobre a anatomia masculina diante de perguntas como "por que meu pipi cresce toda manhã?". Ou então, ser surpreendida com um "mãe, você tá com aquelas dorzinhas de barriga de mulher?", se referindo à TPM, diante de um choro meu ou de um momento de ira.
Sim. O Lucca já aprendeu a ler os sinais.
Talvez porque eu converse muito com ele, às vezes me deparo com uma criança que argumenta diante de nãos ou diante de alguma solicitação que não lhe agrade. Ele esgota as possibilidades com fatos, argumentos, motivos. Não faz manha, nem malcriação. Expõe aquilo que pensa. Ele reforça sua vontade com discursos seguros e coerentes.
E eu me assusto porque vejo que ele se distancia quilômetros de seus coleguinhas com essas atitudes. Mas não deixa de ser uma criança que adora brincar, adora os desenhos da tevê, que empina pipa, anda bicicleta, de skate, cai e se rala todo, volta chorando e que, como num passe de mágica, depois de um beijo e de um afago, esquece tudo e volta para a brincadeira.
Mas o Lucca é especial. Talvez porque tenha sido criado no meio de adultos ou porque tem uma "pãe" maluca, que quer vê-lo crescer como um cara legal, honesto, ele procura sempre saber de tudo, mesmo que a conversa seja de "gente grande".
Lembro bem do dia que eu tatuei seu nome no meu pulso esquerdo e cheguei para buscá-lo no futebol e ele teve uma explosão de alegria, largando o jogo e correndo para me abraçar. Afinal, ele achava que seria o único aluno da escola que teria uma mãe tatuada com o nome do filho. E todo mundo na escola ficou sabendo da tatuagem.
Meu filho sabe o que foi (ou ainda é) a tal crise financeira mundial porque ao ouvir uma notícia no rádio, às 6h40, no caminho pra escola me perguntou sobre o assunto. E eu tive que rebolar pra ser o mais clara possível. Ao fim da explicação, veio a observação: "então foi por isso que você perdeu o emprego?". Respondi que foi indiretamente por conta disso, mas que tinha a ver.
Na hora do almoço, ao chegar em casa, ele pegou seu cofrinho, lotado de moedas, colocou sobre a mesa e veio com mais uma pérola: "pra te ajudar a manter a casa e comprar comida".
E eu desabei, orgulhosa por saber que estou cativando eternamente alguém que vê em mim um exemplo de luta, de dedicação.
Outro exemplo: quando voltei derrotada do Fórum, com uma pensão alimentícia ridícula decretada por um juiz que sequer leu o processo, o Lucca me perguntou o que havia acontecido. E eu contei a verdade, que o pai dele tinha ludibriado o juiz para pagar uma pensão bem pequena. Ele, aos prantos, respondeu que não era pra eu ficar triste porque sabia que eu fazia todos os dias o meu melhor, que dava tudo pra ele, que deixava de comprar pra mim pra dar pra ele, e que ele tinha orgulho de ter uma mãe como eu.
Neste dia ouvi a coisa mais linda do mundo, que fez com que eu passasse a me orgulhar muito de ser mãe-solteira, de ser, assim, guerreira, leoa - sem falsa modéstia.
Porque educar um filho é mais do que uma obrigação: é um ato de amor para uma criança que vai ser a concretização do futuro. E se eu quero um mundo melhor, que seja através dos valores que estou passando ao Lucca - seja nas nossas intermináveis conversas debaixo do edredon, antes de dormir, seja quando estamos brincando, seja diante de um gesto, em silêncio.
Por isso, hoje deixo aqui os parabéns pelo Dia dos Pais à todas as mães que, assim como eu, têm essa missão maravilhosa de formar pessoas sem o apoio de um pai.
Meninas, nós somos "PÃES" M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A-S!!!!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Life must go on.


Passada a primeira semana, o seguir em frente está parecendo menos penoso.

Já consigo respirar, viver, sorrir normalmente, assim como ter alguns pequenos prazeres, que foram resgatados.

Nesses dias revi amigos, conheci gente legal, gente interessante, alguns trabalhos apareceram, algumas festas também.

Os meus momentos de solidão foram comigo mesma - ora no trânsito, ora em casa, já que o Lucca está de férias na casa da minha mãe - mas já não tinham aquele peso do abandono.

Agora sou eu e pronto!

As lembranças ainda povoam os pensamentos, mas também já estão saindo do coração. Talvez um dia esse amor acabe. Ou não.

Mas creio que a melhor coisa que eu tenha feito foi guardar tudo e tirar do meu alcance pertences que poderiam desviar meu foco.

E o foco, a partir de então, sou eu e pronto!

Com tantas "novidades" e diante de possibilidades infinitas já consegui até emagrecer - sem esforço, sem fome, sem ficar doente.

Credito isso a minha melhor qualidade, a resiliência.

Nesses últimos dias ouvi, sozinha, a minha mais sonora gargalhada ao constatar que sou muito atrapalhada (bati a cabeça no móvel do microondas ao tentar "salvar" um copo que caiu do escorredor de louça), ouvi minha respiração mais calma; da minha varanda vi um luar lindo, iluminando uma noite fria, e ouvi o grilo cantando (?) no terreno ao lado do prédio.

Ouvi muitos conselhos, impressões, pitacos. E resolvi seguir meu coração.

Também chorei algumas poucas vezes, afinal, sou humana! Mas o choro foi muito mais de saudades de um tempo que já passou do que de dor.

Vi, pelas janelas da minha alma, que apesar de tudo parecer destruído, a vida dá sempre um jeito para que o "seguir em frente" aconteça sem que percebamos.

E olha: já se passaram onze dias!


domingo, 26 de julho de 2009

O seguir em frente.


Cabeça erguida, sem lágrimas, coração aberto, não olhe para atrás, afinal, novas possibilidades te esperam em qualquer esquina. Bastou virar alí, à direita, e pronto!

É... parece fácil executar o tal "seguir em frente".

Mas como apagar memórias tão ricas, tão vivas, tão latentes de tão longos anos?

Pior: como explicar para si mesmo que os tais planos que tanto sonhavam juntos não valem mais a partir de já? Aonde é que se colocam, depois de um fim mal decretado, os sentimentos nobres como a lealdade, o companheirismo, o amor?

Qual é o rumo que devemos tomar?

Dos outros eu não sei. Mas eu voltei pra casa, assim, sozinha, rasa de explicações e lotada de sentimentos, de dor, de dúvidas: como se mata um amor de um dia pro outro? E, se não havia mais amor, por que arrastar uma mentira por tanto tempo? Por que tantas desculpas, tão desencontradas, tão contraditórias?

E tem mais: quem faz isso geralmente se esquece de que as pessoas se falam, conversam entre si. Daí mentiras vêm à tona. E machucam mais e mais, e muito mais quem é, simplesmente, o alvo.

Chega a ser cruel.

Juro, me senti um touro derrubado numa arena de tourada depois de tudo o que vivenciei nesses últimos dias. Sangro alí, a céu aberto, exposta aso olhares de reprovação e de euforia de um público que se divide em torcer pelo touro e pelo toureiro.

Só que diferente do animal, eu não vou morrer fisicamente. A alma foi-se embora na penúltima madrugada, e meu corpo ficou aqui, com as dores e os danos morais que me proporcionaram.

E o seguir em frente tornou-se tarefa obrigatória.

Tentei me distrair o dia todo, fazendo de um sábado chuvoso o primeiro dia da minha nova história: fui ao supermercado, levei o Lucca ao pai dele, fui praticar meu credo, recebi um amigo querido e ainda saí com outra turma que é, sim, o meu porto seguro. E o melhor de tudo é que ninguém perguntou nada, ninguém fez menção ao ocorrido. Fui abraçada por todos e, como num pacto silencioso entre eles, todos se revezaram para me fazer sorrir.

Hoje acordei tarde, porém, um pouco mais leve do que ontem. Havia parado de chover e o Sol arriscava sair. Tive a certeza de que seguir em frente é meio instintivo.

Por isso, ontem guardei numa gaveta que quase nunca uso as fotos, os cartões, os mimos, bilhetinhos com juras de amor, guardei as jóias, a aliança - escolhida com tanto carinho por quem me queria tanto, há tão pouco tempo. Aliás, tirar a aliança da mão talvez tenha doido mais do que se eu perdesse um dedo.

Não consegui ainda apagar os emails com palavras sinceras, carinhosas, que me proporcionavam tanta segurança. Ao contrário: reli todos - absolutamente todos - para me certificar de que não estou louca, e que havia acontecido, de fato, até bem poucos dias atrás, uma história de amor.

Mas como tudo nessa vida um dia acaba (ou morre, como as flores de uma paineira, por exemplo, que cedem lugar ao real propósito da árvore), provavelmente seja esse o último grão a cair para germinar em mim o recomeço.

E que o seguir em frente seja, assim, abençoado.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Não existiria som se não houvesse o silêncio.


Já contei aqui que também participo de outro blog, o De Salto Alto e Batom (http://desaltoaltoebatom.blogspot.com/), escrevendo todas as segundas-feiras.

E hoje, dia 20 de julho, data em que comemoramos o Dia do Amigo eu não podia falar de outra coisa.

Nem lá e muito menos aqui.

Na verdade eu não sei quando começou essa história toda, mas nosso calendário tem umas datas comemorativas tão esdrúxulas que o Dia do Amigo era, praticamente, obrigatório entre tantos outros “dias de alguma coisa”.

Se bem que, como outras tantas datas, o Dia do Amigo é todo dia.

Há uns meses (acho que foi em setembro do ano passado) eu escrevi aqui um texto que falava da importância de se ter amigos. Naquela época eu começava a enfrentar essa fase complicada que eu venho vivendo (profissional, emocional, no relacionamento) e, por uma semana, tive a certeza de que o chão se abriria sob meus pés e que meu mundo ruiria em segundos.

Mas qual não foi a minha surpresa ao ver que amigos, mesmo distantes de mim (e até mesmo sem saber o que estava se passando comigo), vieram ao meu socorro e me fizeram ver que o buraco não era tão negro assim. Ganhei colo, poesias, risadas, e mais do que isso, também ganhei fôlego para continuar a luta diária.

Acontece que, como toda crise, aquilo era realmente a pontinha do iceberg e hoje vivo dias igualmente difíceis, porém, que não se resolverão em apenas uma semana, como foi da outra vez. Acontece também que alguns amigos daquela época notaram que algo, de novo, não vai bem, e vieram ao meu socorro.

O mais engraçado de tudo isso é que eu sempre fui a “socorrista” – era eu quem saia como um carro do resgate para consolar alguém, tirar amigas da fossa por causa de um pé na bunda, ouvir problemas sérios, dar conselhos... E agora sou eu quem está ganhando tudo isso.

É... A vida é realmente uma troca.

Por isso, hoje eu quero agradecer cada um de vocês que simplesmente entraram, assim, de graça, na minha vida.

Gente, sem vocês eu não sou nada!!

É como o título desse texto (extraído de uma música do Lulu Santos): não haveria som se não houvesse o silêncio. Assim como não haveria minha mais gostosa gargalhada se não houvesse cada um de vocês, com a força e a alegria, características de cada um. Assim como as minhas mais doloridas lágrimas não seriam enxutas se não tivesse gente como as meninas deste blog aqui – todas, sem exceção. Como a Juliana, por exemplo, amiga há quase 18 anos, que está empenhadíssima em não me fazer pensar nas pedras que estão no meio do meu caminho. Para se ter uma idéia, até no jogo do Corinthians contra o Sport ela me levou, na quinta-feira passada. E sabe, foi muito divertido.

Aliás, na quinta-feira mesmo uma outra figura muito importante apareceu do nada. Não sei se esse mocinho tem idéia da importância dele em minha vida. Também não sei como ele fareja que eu preciso de uma palavra apenas, às vezes.

Muitas vezes ficamos semanas sem se falar, meses sem se ver, mas o Kleber é, de fato, o meu “personal elevator de autoestima”. É impressionante como ele sabe a hora exata de ligar e falar meia dúzia de galanteios que fazem dissipar qualquer tempestade. Detalhe: ele faz isso há anos e sem saber de nada do que está se passando comigo. Daí que ele também me ouve e, por uns dias, me paparica. Depois some, tal qual fumaça de insenso, deixando somente a lembrança olfativa de que algo delicado e marcante esteve por ali.

Também na quinta-feira outra pessoa me interpelou perguntando se estava tudo bem comigo. Era o Robson, do blog Pensandout.

É engraçado como certas pessoas acabam nos conhecendo somente por linhas, por palavras escritas. E o mais engraçado ainda é nunca nos vimos pessoalmente, nunca tomamos uma cerveja juntos, rimos juntos, nem nada. Não acreditava em relações virtuais até ter o blog, que me trouxe gente tão linda, tão real, que às vezes custo a acreditar, como a Lili, a Débora ‘Pequena’, o Rafa Cury e o próprio Robson (entre tanto outros).

Justamente por conta dos meus últimos posts – aqui e acolá – ele quis saber, sem nenhum interesse o que estava acontecendo comigo, o por quê de textos tristes, densos, doloridos. E eu acabei contando tudo, assim, de uma vez só para uma pessoa estranha.

Estranha!?

Não, ele não é mais estranho. É alguém que de longe percebe que não haveria luz se não houvesse a escuridão. E ajuda a trazer à luz alguém que está um pouco perdido nesse caminho tão escuro.

Tem também outros amigos, como a Luciana (do blog Asas Novas), que é minha parceira de muitas coisas. A Lu compartilha comigo, além do signo, profissão e credo, ideais de vida completamente reais. Amiga, a gente ainda chega lá, viu!?

E o que dizer dos outros autores blogueiros*, como o Gustavo Jaime, do D´Além Mar e do Inutensílio do Mundo, o Francisco, do Pra Ler no Banheiro, a Carla, do Um Mundo pra Chamar de Nosso, o Rafa Cury, do Eu Comigo Mesmo, e mais tantos outros que escrevem seus sentimentos em forma de poesia, contos, impressões, pensamentos, e que me provocam, ora gargalhadas, ora lágrimas, como se estivessem falando diretamente pra mim.

Tem muita gente ainda que eu queria por aqui, mas o espaço é curto e esse texto está ficando longo.

Ah! Ainda em tempo, eu queria também agradecer a Diana (que escreve lá no De Salto Alto e Batom todas as terças-feiras) pelas palavras duras no msn. Nem sempre ser docinha ou ser condescendente ajuda quem realmente está precisando. Também queria dizer que estarei sempre pronta para te ajudar, te receber e até mesmo me despedir (e torcer para que dois meses passem voando e você volte logo porque você vai fazer uma falta danada, viu, sua Coroca).

Por isso, deixo aqui o meu mais sincero OBRIGADA pela amizade – seja ela presencial ou não.

Vocês não têm idéia de como é bom ter vocês por perto!!

E, como dizemos entre nós do De Salto Alto e Batom, a cada recado que mandamos uma para outra, tenham a certeza de que AMOLHES do fundo do meu coração.


* blogs citados:










Um Mundo Pra Chamar de Nosso: http://ummundoprachamardenosso.blogspot.com/






OBS: juro que eu queria dar um abração bem apertado em todos os meus amigos hoje. Já que não dá pra abraçar todo mundo, fica aqui registrado esse abraço!!


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Pra me socorrer: Clarice.


"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar."


(Clarice Lispector)
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terça-feira, 14 de julho de 2009

De som e serenidade.


A inspiração anda me fugindo ultimamente e poucas são as coisas que me tocam e me fazem ver a vida com outros olhos.

Aliás, nem minhas músicas têm sido companheiras das dúvidas.

Meus autores favoritos escrevem coisas bacanas, mas também já não tem me falado diretamente. Mas mesmo assim eu ainda os leio, como num exercício diário de resgate de alguma coisa que foi perdida num dia desses qualquer.

E dessa vez não foi o carro novo que quebrou pela terceira vez em dez dias, nem as incertezas profissionais, financeiras. Não é falta do Lucca, que passa férias na casa da avó. Não é a crise que se abateu (again, again and again) no relacionamento.

É tudo. E também não é nada.

É como numa valsa longa e arrastada. É como num samba de uma nota só.

E mesmo que eu pareça cantar aos quatro ventos a melodia que a vida impõe (ou seria sugere?), não há harmonia. Há, sim, uma falsa serenidade.

Mas hoje, justamente hoje, quando alguns sonhos ainda se esvaiam no meio de pensamentos num dia invernal tão lindo e ensolarado, li algo que me despertou.

Vi que essa música tem duração, e o repeat só funciona se eu apertá-lo.





Meu coração dança

no balanço da canção

Meu coração canta

em alto e bom som


Mas às vezes emudece

e congela no salão

Às vezes se esquece

que a música tem duração


sábado, 27 de junho de 2009

Não ser. E ser.


Já passava das 17h30 quando ela percebeu que nada, absolutamente nada do que ela esperava havia acontecido. O outro não ligara.

De repente começou a sentir uma dor imensa dentro dela, como se um buraco negro estivesse se formando a partir de onde ficava seu coração.

Começou a chorar baixinho, enquanto procurava alguma coisa pra fazer. Um chorinho incontido, sem soluços, só lágrimas.

Olhou em volta e não encontrou nada que pudesse de distrair. Também nem viu as peças de artesanato que precisava terminar, muito menos as outras que nem sequer haviam sido iniciadas. Nada fazia sentido naquele momento. Mesmo porque para fazer arte é fundamental que sua alma esteja em paz, que o artista esteja bem. Afinal, cada peça que ela concluia estava carregada de boas energias.

Para ela, fazer artesanato era mais do que um passa-tempo: era uma forma de expressar tudo de bom que guardava dentro do seu peito.

Mas naquele momento ela estava estranha. Não era um vazio propriamente dito, mas um misto de emoções correndo desencontradas e que a cada choque, provocava um maremoto de sensações.

Sabia que estava fazendo o correto, o racional. Sabia, inclusive, que já estava atrasada com suas decisões.

Mas como gerenciar o coração se ele está tomado pelo outro?

Ela havia chegado a um ponto tão crítico que era capaz de afirmar que amava mais o outro do que a si mesma. E conseguir parar, num ponto desse, já não era tão fácil.

Olhou pra trás e não se viu nos últimos cinco anos. Por onde será que teria andado?

Pois se a vasculhar o computador e, em buscas de pistas, encontrou um registro fotográfico imenso da vida que ela decidira viver. E daí, ao olhar foto por foto, percebeu-se coadjuvante num papel de segunda categoria. O pior de tudo é que ela havia aceitado sem contestar.

Acontece que com o passar dos anos foi percebendo que aquele não era bem o personagem que ela queria e passou a contestar.

Sem êxito contentou-se em seguir ao lado do protagonista da série. Afinal ela era a maior fã do ator principal.

É, a vida dela podia ser comparada a um filme B. Sem grandes emoções, cheia de clichês, nem locações paradisíacas. Não havia figurinista, não havia continuação entre as cenas. Nem como num sitcom, nem como uma novela mexicana, o roteiro era escrito alí, na hora, de acordo com os gostos e humor da estrela principal.

E como não dá pra viver de improvisações, ela cansou.

Roubou a cena num dos momentos mais tensos, e quase ganhou o papel principal.

Quase.

A estrela, temerosa por perder terreno ou admiradores, colocou a parceira de série pra escanteio. E a partir daquele momento ela saia de cena mesmo contra sua vontade.

Nos primeiros dias acreditou que ele viria procurá-la. Ele não era bom no palco sozinho.

Uma semana depois o enredo havia mudado: não tinha mais espaço pra ela nem como assistente de palco.

E ela se viu sozinha. E percebeu que nunca mais teria seu papel de volta. Um papel que nunca quis pra si mesma, e que aceitou por acreditar que um dia brilharia ao lado dele, como num dueto.

Juntou os cacos que encontrou em seu peito eDecidiu procurar outros espaços, mas não sabia nem por onde começar.

Por isso foi olhar as fotos.

E viu, alí, registrado em cliques, diversos trailers de uma linda história de amor. Pena que ela tenha vivido sozinha.

Agora só lhe restava carimbar o FIM e se despir da personagem.

Depois disso, quem sabe, a próxima história seja uma comédia romântica e não um drama.